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Blog de renato polli
 


Dom Roberto

 

 

A vida nos prega muitas peças. Havia um jovem impetuoso, que no início dos anos 80, ainda seminarista, quis bancar uma conversa de "despedida" do seminário diocesano, com o então titular, Dom Roberto Pinarello de Almeida. A impetuosidade do garoto, que formado nas fileiras de uma mística desencarnada, supunha agora a necessidade do compromisso com a igreja da libertação.

O bispo, furioso, fez um discurso para que assumisse no laicato a profissão de educador. Aconteceu quase como uma profecia. Passados 27 anos, o jovem em questão, que escreve este artigo, encontra no fundo de uma gaveta uma cópia de uma carta de Dom Roberto, endereçada a um outro membro do magistério da igreja, com dizeres surpreendentes. Difícil conter a emoção. Afinal, a suposição que eu tinha de que Dom Roberto assumia o lado tradicional da igreja era mero devaneio e imprudência perceptiva.

Na verdade, a comoção veio por conta da elegância do segundo bispo diocesano ao tratar questões de ordem teológica e pastoral, sem os holofotes do seu sucessor, que desequilibrado ideológica e emocionalmente causava situações de extrema gravidade conflituosa com o clero e com os leigos. Vi na carta de Dom Roberto, aliás, revi, as palavras em que defendia nomes consagrados da ala progressista da igreja, contra a deselegância posta num livro em que questões simplificadas do discurso binário progressismo/conservadorismo, reduziam ao clericalismo algo que é, na verdade, do campo da eclesiologia e da história social.

Senti-me como alguém que cometeu um erro de percepção imperdoável, próprio dos jovens contestadores: não contemplar o todo. Está na gráfica um livro meu que será lançado daqui algumas semanas, em que, a partir da pesquisa científica no campo do programa de História Social da PUC-SP, dentro da linha de Igreja e Movimentos Sociais, apresento minha versão sobre a experiência do movimento de jovens e da Pastoral da Juventude da Diocese de Jundiaí, entre os anos de 1969 e 1986.

Dom Roberto e Padre Paulo André Labrosse foram figuras-chave na transição de uma visão espiritualista de prática pastoral, para a dinâmica da pastoral orgânica. Nunca houve uma interferência de Dom Roberto, para este ou para aquele lado. Ao contrário, foi coerente com a feição que dele guardo hoje: um homem fino, elegante, de alta capacidade intelectual, de beleza física e estética invejáveis.

Enfim, um bispo que, se não estava tão comprometido com a ala progressista, pelo menos era afinado com os ares da democracia que se reinstalava no país. Provas disso são as estratégias que adotou, especialmente compor o antigo com o novo. Fica aqui meu pedido póstumo de desculpas a Dom Roberto.



Escrito por Renato Polli às 23h45
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A razão na cozinha?

 

 

Iniciei a semana de forma muito agradável, ouvindo uma instigante exposição de um grande amigo, associando reflexão ao gosto por cuidar de si mesmo. Não sem muita coincidência, tentando imaginar um motivo para escrever, revirei as páginas de um livro que ganhei de minha cunhada e me deparei com um aforismo do filósofo Nietzsche: "a razão começa na cozinha".

Intrigante, ao menos, que alguém possa pensar que o cuidado com o que se come e como se prepara o que se come represente uma atitude reflexiva, uma capacidade de razão. Normalmente associamos essa capacidade à argumentação lógica, aos formalismos da comunicação, ao desejo constante de contrapor opiniões. Nada mais enganoso. O autor do livro em questão, Allan Percy, comentando o aforismo, nos lembra que a gastronomia de uma região define seus valores, assim como o estômago de uma pessoa, sua espiritualidade.

Brincando com a ideia, Percy ainda indica um documentário, "How to cook your life" (Como cozinhar sua vida), em que um cozinheiro afirma que, na verdade, são os alimentos que nos cozinham. A atitude do cuidado no separar os bons produtos, de prepará-los, de condimentá-los, revela o apreço que alguém que cozinha possui pelos seus parceiros de jornada. O combustível bem preparado significa a capacidade espiritual do cuidado com o que é material, nosso corpo.

Escolher o que comer demonstra a capacidade de transcendência de um indivíduo e, portanto, sua razão, já que escolhe sempre o que é bom, o fazer o bem, o cuidar. Da mesma forma deveríamos procurar escolher bem as palavras, pensar nossos diálogos. Outros dois aforismos, comentados no mesmo livro, completam o quadro de nossa reflexão: o primeiro lembra que "quem não sabe guardar as suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados" e o segundo que "quem declara que o outro é um idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade."

A maior parte das confusões entre pessoas está situada nessa falta de cuidado e na impulsividade que leva ao julgamento, à acusação e à vingança. Como diz a sabedoria árabe, mais inteligente é o que fala por último, depois que todos já foram ouvidos.

Um ditado japonês utilizado por Percy no livro categoriza: "o que tiver que dizer, diga amanhã". Depois dos tormentos do diabólico humano, a reflexão que vem da cozinha nos auxilia a mais ponderar e considerar, revendo as próprias posições, que querer demonstrar que temos razão. Gostoso aprender com as situações da vida e tolerar mais.



Escrito por Renato Polli às 23h44
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Mercadante no MEC

 

 

A já decidida transferência do ministro Aloizio Mercadante, do Ministério da Ciência e Tecnologia para o Ministério da Educação, vem gerando preocupações por parte de vários setores do meio educacional. Os dirigentes da educação básica, especialmente secretários municipais, temem, segundo publicações na imprensa, uma ação política mais incisiva do novo ministro, suprimindo a característica do Ministro Haddad, de diálogo e construção coletiva de propostas.

Uma de suas marcas, ao menos na sua gestão, foi a condução da elaboração do novo Plano Nacional de Educação. Há temores quanto às concepções educacionais de Mercadante, que chefiará um orçamento de cerca de R$ 70 bilhões em 2012. Seu discurso enfático em defesa de uma educação que promova a qualificação profissional sugere que o novo gestor possa incorrer num desvio pedagógico, ou um retorno ao discurso da teoria do capital humano.

Essa teoria foi o norte das políticas educacionais tecnicistas dos anos 70 e 90 e baseava-se fundamentalmente no discurso da formação técnica. As más línguas dizem que o ministro talvez privilegie mais o Ensino Superior Federal, desmontando "tacitamente" o setor privado e deixando de investir na Educação básica. A formação para o trabalho é uma das dimensões da formação escolar, mas não a única. É fato que o Brasil carece de mão de obra qualificada, especialmente agora que fez opção pela exploração de serviços energéticos discutíveis, que necessitam de trabalhadores com melhor preparo para essas áreas.

A prospecção de petróleo, o turismo, a ampliação dos serviços de transportes proporcionados por grandes eventos que virão nos próximos anos, indicariam essa necessidade. No entanto, não se pode permitir que o trabalho educativo se reduza a esta única tarefa. Não se pode privilegiar apenas a tecnologia de ponta em detrimento da formação integral. Na campanha para o governo do estado de São Paulo, Mercadante causou polêmica ao perder a oportunidade de distinguir aprovação automática de progressão continuada.

Ao defender o fim da aprovação automática, fez fortalecer um discurso oposto, que sustenta que essa sempre foi a bandeira das tendências progressistas em educação. Realidade posta, ele será o novo ministro. Resta saber se o cenário que se avizinha se consolidará: um esvaziamento do discurso progressista e o fortalecimento, novamente, de uma concepção tecnicista em educação. Detalhe: o novo ministro é um economista. Qualquer semelhança será mera coincidência?



Escrito por Renato Polli às 23h44
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Que paz é essa?

 

 

Ando meio desconfiado, não sei se nosso discurso sobre a paz vem acompanhado por condições históricas objetivas para que ela vingue. Basta olhar para esse anseio megalomaníaco do anúncio do ano novo, manifestando-se no simples prazer em fazer barulho. Nada contra comemorações, mas estou mais do lado dos milhares e milhares seres que, na natureza, sofrem com essa tradição. Sim, na natureza.

Na zona rural, encontramos muitos dos que chamamos de irracionais, sofrendo por causa daqueles que supostamente a possuem. Véspera de ano novo, por exemplo, na minha região tivemos que aguentar, simplesmente aguentar, um sujeito tocando seu repertório durante o dia inteiro. E mais, no momento certo, vieram os rojões. Trata-se de uma área cheia de animais silvestres que, passivos, precisam sofrer as dores de parto de alguém que não tem paz e não deixa os outros viverem em paz.

Dias antes do final do ano, cena no mínimo horripilante, uma pessoa brigando no trânsito. Alguns dias depois, eu seria vítima do xingamento de um outro. A tranquilidade cedeu lugar à loucura, escapamos por sorte, quando a temos. Animais abandonados aos quatro cantos da cidade, em plena chuva, inclusive próximos ao Centro de Controle e "Bem-Estar" animal. Nada mal. Um paradoxo, diria. Primeiro dia do ano, dia mundial da paz.

Olhamos para os desdobramentos da economia nacional e nos deparamos com aberrações, como o fortalecimento do capital financeiro, as investidas em usinas hidrelétricas cujos impactos serão nefastos, um discurso econômico em descompasso com o que apontam sérios economistas (não há desenvolvimento algum) e, ainda por vir, a possível fusão do ministério da ciência e tecnologia com o da educação (dizem as más línguas).

Há um projeto em curso, nem sabemos bem ao certo o que é e como se consolidará, mas há. Notícias frescas, publicadas nos últimos dias, dão conta da morte de milhares de soldados no Afeganistão, todos estavam lá para manter a paz entre os povos, claro. O que será que demonstra a possibilidade da paz, ainda? Pelo menos a paz interior. Sejamos cômicos ao menos. Mas rir das desgraças alheias, que agora começam com a temporada de chuvas, não tem graça nenhuma.

Muito anseio e pouca paz, na verdade. A correria, as demissões de final de ano, os desencorajamentos cotidianos, as críticas constantes, as insatisfações, as cobranças, fazem com que a ansiedade, o desespero, a desesperança nos espreite. A quem recorrer? Só vejo uma saída. Esperançar mesmo contra toda desesperança. Arregaçar as mangas e fazer a nossa parte. Cuidar dos animais, votar de maneira consciente, trabalhar com honestidade e dedicação, contaminar a vida com atitudes de paz.



Escrito por Renato Polli às 23h42
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Tempo rei

 

 

Gilberto Gil nos brindou com uma das mais belas letras da música popular brasileira. Em um trecho ele diz: "não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido...". Aparentemente uma visão determinista, imobilista, como se nada mudasse, tudo sempre permanecesse assim do jeito que está. Mas em outro trecho ressalta: "transformai as velhas formas do viver". Eis a esperança humana. Sabedores que somos do inevitável de certas permanências, esperançosos ficamos em relação às mudanças possíveis.

O tempo, eis a questão. O que é o tempo? Em geral o identificamos com a cronologia, com a medição mecânica dos segundos, minutos, horas, dias. Raramente pensamos no tempo como experiência vivida, como a possibilidade do inusitado entremeado pelo corriqueiro. Sim, uma constância quase temerária, já que a ela queremos controlar. Assusta-nos essa regularidade, mas é justamente nela em que fundamos as possibilidades do novo.

Continuamos, por razões as mais incompreensíveis, saudando o início de novos tempos, um novo ano, uma nova situação de vida. E perdemos o sentido de regularidade criativa, creditando no depois, a esperança que poderíamos concretizar na mesmice do cotidiano. Há lampejos de sentidos ocultos nos mais supostamente inexpressíveis eventos do dia a dia. Nossa visão megalomaníaca não nos permite perceber na simplicidade dos sentimentos, atitudes, acontecimentos, bases fundamentais para um fundamento existencial.

Um gesto de generosidade, uma atitude de compreensão, uma palavra de conciliação, uma espera paciente, uma doação sem esperar reciprocidade, uma caridade emergencial (mas fundamental). Ao preferir repetir inadvertidamente os fracassos e insucessos, deixamos de perceber o que de bom podemos fazer. Atiramo-nos pedras quando poderíamos juntá-las para construir um castelo de alternativas viáveis para a convivência, a melhoria de condições de vida, a resolução democrática (de fato e sem interesses escusos por trás) de problemas da urbanidade.

Gosto de lembrar uma frase que meu pai diz com muita sabedoria, o tempo todo: "nada como o tempo". Sim, nada como o tempo, ele se encarrega de tudo. Mas não um tempo que virá, lá longe, e sim um tempo que acontece no agora. Ele mesmo, esse tempo do vivido contínuo, do agora. Se estivéssemos mais atentos a ele, nem precisaríamos soltar rojões no dia 31 de dezembro, porque a vida em sua continuidade, por si só, já é uma grande comemoração.



Escrito por Renato Polli às 23h41
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Vivendo no mundo material

 

 

Às vésperas do natal, sempre surge a apreensão quanto à escolha do tema do artigo que escreverei. Como a experiência pessoal de vida sempre me mobilizou para refletir sobre questões ligadas à religião, foco de uma das minhas experiências acadêmicas de pesquisa, nesta época do ano, me direciono por esse caminho. Hoje abro uma exceção. Não propriamente porque fugirei à regra temática, mas pela escolha do caminho a percorrer.

Quero comentar sobre a produção do filme-documentário "Living in the material world", do diretor Martin Scorcese, sobre a vida de George Harrison, o "quiet beatle", como era chamado. O próprio nome do documentário, referência à crença espiritual de Harrison, em muito associada à sua amizade com Ravi Shankar, músico e espiritualista hindu, indica que não saímos do tema de sempre. A espiritualidade é um elemento da cultura. Isso é um fato inegável.

Por mais críticas que o meio acadêmico e científico possam fazer aos meandros da alienação proporcionada por influências religiosas (uma inferência reflexiva quase sempre legítima, especialmente em Marx), não é possível deixar de admitir a presença do inefável desejo humano pela transcendência. George Harrison, um músico de sucesso vindo de família pobre, que conquista todas as condições materiais objetivas para viver uma vida voltada apenas aos elementos físicos da experiência, propunha uma vida de desapego.

Alguns dirão que é bem fácil para uma pessoa em boas condições econômicas propor tal empreitada. Talvez. Há amigos de Cristo, como Lázaro, que assim viviam. A maioria deles, no entanto, estava na pobreza. Para muitos a pobreza é natural e não há nada que possamos fazer contra ela. Pior é a pobreza de espírito, dizem. Mas Cristo advertia: "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus." No entanto, o próprio Harrison se desalienava dessa compreensão, ao assumir compromissos caritativos, como o famoso show em favor de Bangladesh.

A caridade é o primeiro passo em direção à libertação. O romantismo da vida espiritual elevada não é de se desprezar, mas ele exige ações concretas em direção a uma bondade universal que se traduz pela superação da injustiça material. Afinal, vivemos num mundo material, que, se nos aprisiona, também pode libertar ao priorizarmos a consciência sobre o que fazemos da própria vida. O natal pode representar isso, se quisermos. Como um fã incondicional de Harrison, sugiro a todos que assistam esse emocionante relato de um privilegiado Beatle, sobre o que é viver as contradições humanas.



Escrito por Renato Polli às 23h40
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O outro lado

 

 

É bastante recorrente na literatura educacional a crítica à culpabilização do aluno. O educador americano Peter MacLaren, um dos principais autores da Pedagogia Crítica, amigo de Paulo Freire, diz em um de seus trabalhos que há muita vileza de espírito povoando o ambiente escolar. Provocadora de muitos sofrimentos no lado mais fraco da relação professor-aluno, a prática sinistra de jogar a culpa das dificuldades do educando nas suas próprias costas é uma nefasta maneira de empurrar para debaixo do tapete algo que muitos não assumem: sua perversidade.

É verdade que os educadores devem sugerir responsabilidades necessárias à prática de estudo. É verdade também que nem sempre há correspondência entre o que se espera do aluno e o que ele oferece. No entanto, temos que ser honestos em admitir que na maioria das situações, a escola enquanto instituição não faz muita coisa em favor da compreensão dos reais motivos que levam aos descompassos dos alunos. Deste ponto de vista, creio que muitos educadores se isentam da responsabilidade de perceber o aluno como pessoa.
Os dizeres, os termos utilizados, especialmente nesta época de fechamento de ano letivo, são um tanto repetitivos: falta de pré-requisitos, falta de empenho, falta de responsabilidade, falta, falta, falta... Falta muita coisa, de fato, inclusive a sensibilidade que se espera daqueles que estão há muito tempo na vida. Especialmente para não confundir crianças e adolescentes como "adultos em miniatura". As vozes menos complacentes dirão que vivemos tempos de impunidade e "que vença o chicote pedagógico".

Ao projetarem nos alunos suas idiossincrasias pessoais, muitos educadores sequer se dão ao trabalho de rever suas posições, se elas são efetivamente humanistas. Não por desleixo metodológico, mas por convicção progressista, aqueles que se alimentam do sonho emancipatório não podem referendar processos de exclusão escolar com o discurso camuflado de suposta coerência, embebido na salada neoliberal da eficácia e da eficiência.

Numa situação paradoxal teríamos os pais de um recém-nascido negando-lhe o direito de viver, já que a partir de seu olhar, faltaria ao bebê pré-requisitos para seguir seu curso natural. Como a própria expressão já diz, "o seu curso natural". Analogamente, a muitos alunos é negado o direito de prosseguir. Sugeriria leituras sobre evasão e reprovação no Brasil: a perversidade é sistêmica e dela temos que abdicar, sob pena de nos tornarmos responsáveis pelas mazelas que dizemos combater.



Escrito por Renato Polli às 23h39
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Psicanálise e educação

 

 

Mobilizar o desejo, manejar de tal forma o trabalho educativo que ele se torne o motivo do interesse do aluno: vislumbrando o prazer do outro que ensina, talvez, o interesse aflore. Mas há o problema da falta. Ao enaltecer negativamente a falta, sem percebê-la como agente mobilizador do desejo, muitos não se dão conta de que o fazer educativo também se constitui através dela. A falta do professor não é vista como pressuposto de um desejo que desperta no aluno.

As críticas recorrentes à "falha" do outro decorrem de uma intensificação narcísica do discurso "do melhor que ainda não se constituiu". Nada contra a crítica fundada aos retrógrados procedimentos de uma pedagogia sem propósitos emancipatórios. Nada contra a crítica às metodologias que engessam o potencial criativo. Mas o discurso da culpabilização parece reificar aquela velha história de jogar fora a água suja da bacia, esquecendo-se de tirar o bebê do ato higienizador.

Aproveita-se do conhecimento acumulado pela humanidade para fazer a crítica da escola, mas nega-se esse mesmo conhecimento como pressuposto da fala do sujeito suposto saber, o desejo do professor. Nega-se também aquilo que Lacan chamava de "disparidade subjetiva", colocando sob o mesmo patamar decisório, sujeitos em estados psíquicos assimétricos. Não há intersubjetividade que resista aos meandros da desigualdade subjetiva. Há uma intersubjetividade possível, conforme nos lembra Habermas, mas a partir de condições ideais de fala.

Fazer o sujeito tomar a palavra e promover a associação livre faz parte desse processo de estimulação do desejo. O ato dialogal sustenta o processo educativo e o desejo, como sempre apontou Paulo Freire. É oportuna a conversa entre Sócrates e Alcebíades no Banquete, mencionada por vários psicanalistas. O filósofo, ao afirmar nada saber, a não ser sobre seu próprio desejo, coloca-se na posição de sujeito suposto saber.

O saber sobre o próprio desejo em Sócrates desperta a paixão de Alcebíades, num processo claro de transferência. Uma paixão que não é inata, mas objeto atraente que o sujeito suposto saber detém e promove no outro. Esta condição na relação professor-aluno ninguém elimina, a não ser que se queira. Enquanto sujeito do próprio desejo, enigmático, o educador propicia a chave do desejo no outro.

Não o seu, mas o desejo mesmo do aluno. Querer suprimir essa condição é desarticular as possibilidades pedagógicas efetivas. Nem todo educador se vê como estimulador do desejo do outro, mas nenhuma aprendizagem se dá por osmose. O desejo só aflorará com a presença do educador, independentemente das metodologias. Negar esse direito ao aluno é matar seu desejo.



Escrito por Renato Polli às 23h37
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Das cercanias de Assis

 

João Di Bernardoni, um jovem nascido em fins do século XII, na pequena cidade de Assis, na Úmbria. Seria o grande responsável pela revolução cristã pós-Cristo. Alguns o consideram a maior figura do cristianismo desde Jesus. São Francisco de Assis, o santo dos pobres e da natureza. Santidade à parte, certamente Lawrence Kholberg o colocaria no rol das personalidades com mais elevado padrão moral da história da humanidade.

Bem antes da opção preferencial pelos pobres, reassumiu uma posição defendida por Cristo e esquecida pelo cristianismo, a da preferência pelos excluídos. Leprosos, doentes e mendigos eram seus preferidos. Daquele pequeno recanto da Europa emanaram novamente na comunidade cristã, os ideais de fraternidade, compaixão e amor pelos sofredores. Francisco reinstituía a força original do cristianismo, ajudando a promover um cisma moral na igreja católica, denunciando a igreja dos príncipes com sua túnica simples, feita de pano de segunda categoria.

Inspirou muitas personalidades e pessoas comuns em todo o mundo, séculos após sua morte, com seu amor pelas plantas, pelas flores e pelos animais. E exatamente na semana em que perdi um dos seres mais amáveis que já conheci em toda a minha vida, me deparo novamente com a figura do filho de Bernardoni, o "poverello de Assise".
O discurso ecológico hoje deve muito também a este homem.

Num momento em que usinas hidrelétricas valem mais que a vida dos ribeirinhos e comunidades indígenas, Francisco representa a independência política e crítica. Apesar de fiel à igreja enquanto comunidade dos crentes, nunca se submeteu às estruturas perversas do romanismo católico, descaracterizadoras da humildade e da simplicidade cristã. Não há organização, de nenhuma espécie, que seja mais importante que a liberdade humana de crer no que é mais sublime e primordial: o respeito à vida e à natureza.

Certamente Francisco nunca fez da sua prática em favor da natureza um discurso paliativo em favor da supressão das injustiças. Ao contrário, associava sua atuação concreta em favor dos mais simples ao amor pelo seu entorno. Sua ética era uma ética profunda, universalista, nada pragmática. Nunca discursou sobre sustentabilidade nem dissociou o agir transformador da harmonia cósmica. Continua vivo, como grande referência para muitos que ainda acreditam num cristianismo para além das veias institucionais, livre, libertador.



Escrito por Renato Polli às 19h49
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Princesa Acácia

 

Tantos anos de convivência. Entra a primavera e a renovação se instala em nós. Você escolhe o dia para nos deixar, justamente aquele que marca o início da nova estação. Se há uma crença, uma esperança de continuidade a cultivar, gostaria que no seu bojo estivesse sempre o desejo de te reencontrar. Você fez por mim o que eu não teria condições de fazer por você.

Dei o meu melhor, a despeito de tanta incredulidade à nossa volta. E fomos vitoriosos, porque você resistiu, heroicamente. Seu nome deveria ser Vitória. Mas eu escolhi o apelido de "princesa", porque você nasceu quando uma princesa morria: "Lady Di". Quatorze anos de mútua admiração e apoio. Eu não sei descrever com palavras os laços que nos uniram nesses quatorze anos.

Você, já tão velhinha, quase cem anos em vida humana, esteve sempre ao meu lado nos momentos de angústia, tristeza, desespero, decepção, mágoas. Eu me tornei melhor a cada dia, por força e influência sua. Esqueci as mágoas, aprendi a perdoar, aproximei-me mais da fé maior na irmandade, colocando Francisco de Assis entre nós dois, como nosso guia espiritual. Ele te amparava no momento de sua agonia final, você estava aos seus pés. Por sorte, nos últimos anos nós dois tivemos maior qualidade de vida.

Você podia, logo de manhãzinha, deitar sobre a graminha da entrada da casa, curtir o solzinho gostoso que penetrava no seu corpo, já que sempre foi tão friorenta. Nunca deixou o medo de rojões, sempre que podia, dava um jeitinho de pular a portinha que dava acesso à casa e se deitar perto da cama, com medo. No seu caminhar você encontrou gente que te quis bem, como o Roberto Magieri Junior, que te olhava para além dos olhos da medicina, como um ser integrado ao cosmo.

Eu ainda te vejo assim, estás integrada ao cosmo, agora em outra forma, etérea, a simples ideia de amor que toma meu coração. Como já ocorrera em outras perdas, apesar do choro e da grande tristeza, o calejar do sofrimento me traz a certeza da perenidade de sua presença em amor. As Acácias, variedade em espécies, vejo como árvore frondosa, em cuja sombra sempre me coloquei. Esta árvore foi você, princesa, um dos suportes do meu viver, uma das sendas da minha amorosidade, por vezes esquecida no mar das idiossincrasias.

Meu fervor por ti em algumas ocasiões se esvaeceu em meio a turbulências diabólicas, influências energéticas negativas que me entornavam a alma. Mas você, como representante ímpar do espírito da bondade universal, nunca me abandonou, esfregando seu rosto por entre minhas pernas, enchendo-me com seu carinho. Onde quer que você esteja, esteja comigo, porque você foi um dos amores mais densos, mais intensos, mais sinceros e generosos que já vivi.



Escrito por Renato Polli às 19h41
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Paulo Freire e John Dewey

 

Neste último dia 19 de setembro Paulo Freire completaria 90 anos. São inúmeros os eventos organizados em todo o Brasil para comemorar esta data, como o que aconteceu na última semana na Faculdade de Educação da USP. Ao lado de Anísio Teixeira, Freire promoveu a revolução conceitual na educação brasileira, já que foram herdeiros do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, assinado por vários importantes educadores brasileiros de referência em 1932.

Desde então, com idas e vindas, mantiveram-se os princípios basilares sobre educação que hoje dão forma ao que está disposto da Constituição Federal: universalização do ensino, a gratuidade da educação pública, a democratização do ensino, a descentralização da gestão. Freire e Teixeira reforçaram o debate sobre a função social da escola. Sobre eles pesava a influência de um dos maiores filósofos e educadores americanos, John Dewey, um liberal democrata defensor incondicional de uma pedagogia ativa, em que o aluno não mais se perpetua numa posição passiva no processo educacional.

A interação e o compartilhamento de experiências são a marca maior de sua visão educacional. Coincidentemente, na última sexta-feira, dia 16 de setembro, Jundiaí ganha mais um Doutor em Educação, o professor Eliezer Pedroso da Rocha, que defendeu sua tese junto à Faculdade de Educação da USP versando justamente sobre "O princípio de continuidade e a relação entre interesse e esforço em Dewey.'

Tive a honra de participar da comissão julgadora de seu trabalho e a sensação maior foi a de ver consolidado um esforço pessoal de muitos anos. Não é tarefa fácil enfrentar o mar de mediocridade teórica que verificamos no discurso e nas práticas educacionais. Muitas falas completamente infundadas sobre educação ocorrem justamente porque nada se lê. Como papagaios, muitos se prontificam a falar do que não conhecem.

Um dos mitos maiores é o da falta de esforço e empenho dos alunos, que devem ser conduzidos pela senda do "chicote pedagógico". Outro, não menos comum, é o que supõe que à criança deve ser permitida uma liberdade total no seu processo "de criação", sem a interferência do adulto. Como disse a professora Maria Nazaré de Camargo Pacheco Amaral, orientadora de Eliezer e uma das maiores autoridades em Dewey no Brasil, "nem dourar a pílula, nem punir o aluno".

O rigor científico não prescinde da atividade criadora e vice-versa. Freire e Dewey nunca defenderam nem uma coisa, nem outra. Antidualistas por natureza, sua teoria do conhecimento se funda na complexidade do processo educativo, rico por natureza, recheado de mediações. A única diferença é que o bom velhinho trilhou os caminhos da libertação. Mas essa é uma outra história.



Escrito por Renato Polli às 19h39
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O joguinho de futsal

 

Acontece quase todos os sábados. Lá estamos nós: professores, alunos, ex-alunos, pais, ex-funcionários. Por infelicidade dos mais jovens, quase sempre os cinquentões acabam vencendo as partidas, já que eles - os antigos aprendizes - ficaram gordos demais, pesadões. É a velha história da experiência dos mais velhos. Eles ficam possessos, mas no fim das contas, o que vale é a brincadeira.

E o número dos participantes aumenta a cada sábado, porque há uma atração quase que magnética por esse contato humano tão saudável. As emoções reaparecem, as lembranças do convívio no passado, os momentos que cada um viveu dentro da escola. No entanto, às vezes, os efeitos da vitória se tornam desagradáveis para os velhinhos, como as dores do final de semana, o cansaço além da conta. Mas isso passa.

O mais interessante é como se misturam, os "experientes" e os "inexperientes", termos frequentemente utilizados no meio educacional. Existem outros, como "melhores" e "fracos", "capazes" e "incapazes", "eficientes" e "ineficientes" e por aí vai.  São expressões que povoam o imaginário sobre a educação e que em nada correspondem àquilo que as visões progressistas defendem: a ideia de processo. Porque nem sempre os mais experientes vencem o joguinho de futsal.

Talvez eu esteja me referindo àquilo que Paulo Freire dizia, que não há ninguém que, ao aprender, não ensine e que, ao ensinar, não aprenda. E mais: já que estamos falando de jogo de futebol de salão, a escola comporta atividades e experiências que transcendem o trabalho conceitual e técnico que a aprendizagem envolve. Ela é parte integrante da vida de todo mundo. Em algum momento, ou pelo menos em boa parte de nossas vidas, estaremos na escola.

E na escola nós aprendemos, brincamos, nos divertimos, fazemos amizades, nos desentendemos, brigamos, cometemos erros. Tudo como na vida. Afinal, somos humanos e não dá para separar a vida fora da escola com a que se vive nela. Não penduramos a nossa alma, o nosso ser, na porta da entrada da escola, para nos dedicarmos única e exclusivamente às tarefas do educar e aprender. Porque educar e aprender faz parte de um processo maior que é a vida. Deste modo, joguinhos de futsal, brincadeiras no pátio, acampamentos, colher as frutinhas do pé de amora, tudo isso faz parte da vida que se vive na escola.



Escrito por Renato Polli às 19h38
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Esperança e realidade

 

Como costumo dizer para os meus alunos, quem não tem sonho está morto. O problema é que sonho é esse, onde depositamos expectativas e colocamos o nosso desejo. Como diz Frei Betto, precisamos virar o desejo para dentro, já que ele está todo para fora: carreira, relacionamentos amorosos, sucesso material, visibilidade política e tantas outras coisas. Sonho tem relação com esperança, com busca do sentido existencial para a experiência de viver.

Somos compelidos pela objetividade, mas guardamos em nós forças subjetivas que podem acalantar a esperança, apesar de tudo parecer desfavorável. Por essa razão, seres desejantes acabam se assustando com os não desejantes. Há tantos jovens sem sonhos e tantos adultos frustrados à nossa volta, que arrisco dizer que nossa saúde mental não anda bem. Pressionados por realidades concretas, como o trabalho, a manutenção da vida, muitos já não conseguem mais manter a garra e enfrentar a labuta.

Tudo parece difícil demais, duro demais. E para a grande maioria realmente é. Não podemos comemorar o dia da pátria sem pensar em esperanças. Cabe ainda perguntar se algum dia teremos uma pátria universal, resultado da afinidade de valores mais elevados: o senso de justiça, o amor e a fraternidade. Se esses valores forem assumidos com mais empenho por cada um dos que sentem esperança, colocando o desejo para dentro novamente, na medida em que nossas forças subjetivas se tornem menos individualistas, quem sabe?

A mesquinhez dos valores liberais, que centram a ideia do bem-estar no sujeito individual, é a causa de todo sofrimento. Sair de si mesmo, mesmo colocando o desejo para dentro, mas para dentro da consciência coletiva, talvez seja um caminho. Há forças sociais que podem embalar esses sonhos e esperanças de mundo melhor. Cito a tradicional celebração do "Grito dos Excluídos".

Por mais retrocessos e conservadorismos, ainda há vozes proféticas a embalar sonhos coletivos. Penso no meu mestre Paulo Freire, autor da "Pedagogia do Oprimido", em Florestan Fernandes, em Luciano Mendes de Almeida, em Pedro Casaldáliga, em Helder Câmara. Um país nem sempre é o retrato de seus mais importantes filhos. Apesar dessa realidade econômica tão opressora, de uma conduta política não tão limpa e democrática, ainda há esperanças.



Escrito por Renato Polli às 19h34
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O fim do ranking

 

Enquanto acena com a Reforma do Ensino Médio, o Ministério da Educação anunciou recentemente o fim da divulgação do ranking do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) por escolas. Os indicadores de desempenho poderão ser utilizados, mas sem bases comparativas que promovam uma competição mercadológica. Já apontávamos, em ocasiões anteriores, que a prática de veicular dados por escolas provoca distorções no olhar.

Como indicam diversos especialistas em avaliação escolar, o conceito de qualidade em educação pode possuir vários significados. Há variáveis que podem inferir para além de uma avaliação individual feita pelo aluno, nas condições do trabalho educativo desenvolvido por uma escola. Infelizmente, por pressões vindas de diversos setores, nem sempre a fiscalização do órgão máximo de controle educacional no país atende aos interesses efetivos da sociedade no que se refere aos padrões mínimos de qualidade desenvolvidos por escolas públicas e privadas.

Mesmo com a autonomia de estados e municípios, o controle de certos quesitos como número de alunos por sala de aula deveria ser mais efetivo por parte do MEC.
A anunciada Reforma do Ensino Médio, que pretende implantar gradualmente o trabalho pedagógico por grandes áreas do conhecimento, deverá enfrentar fortes resistências. Por um lado, das entidades ligadas ao magistério, se as medidas afetarem a organização da vida profissional dos professores.

Por outro, das instituições e escolas do setor privado que defendem uma visão pedagógica centrada nas ideias de eficácia e competência que o modelo tradicional de educação acentua. O MEC tem procurado esclarecer essas demandas anunciadas, no entanto, não sabemos se convencerá.

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que encontramos disparidades enormes no que se refere às condições mínimas para manutenção do trabalho educativo em muitas redes estaduais e municipais, além de escolas do setor privado, temos uma iniciativa pedagógica por parte do MEC que vai à contramão do ensino tradicional. O fim do ranking do ENEM por escolas é resultado do desejo implícito à Reforma do Ensino Médio, ao menos n



Escrito por Renato Polli às 19h32
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Uma noite em 67

 

Foi com muita satisfação que participei novamente, desta vez como degustador e ouvinte interessado, de mais uma apresentação do Projeto da Rede Brazucah, em parceria com a Unianchieta, liderado pelo competente estudante de economia Thiago Miota. O espetáculo ficou por conta da exibição do documentário "Uma noite em 67", que descreve e analisa o famoso Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em que Edu Lobo brilha com a música "Ponteio".

Brilha porque seus concorrentes nada mais são do que Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Sérgio Ricardo, entre muitos nomes de expressão musical na época. Em debate, os temas como o suposto conflito entre os inauguradores da Tropicália e os antigos representantes da MPB. Vários especialistas manifestam suas opiniões em depoimentos que desmistificam esse conflito.

O evento contou com as importantes participações dos músicos João Carlos de Luca, Tom Nando (Fofão) e do professor, arranjador e pianista Hilton Valente (Gogô), um dos importantes nomes da música brasileira, que viveu os bastidores do festival. Na fala dos debatedores, surgiram questões atuais e relativas ao período da ditadura militar, como as tensões vividas, meses após o festival, com a instalação do AI5 e a implantação do efetivo regime de exceção.

Outro aspecto interessante foi a percepção comum aos participantes, de que a indústria fonográfica hoje cede aos apelos do interesse comercial, deixando de propiciar espaços para talentos que não emergem no cenário artístico, devido ao preenchimento dos espaços por artistas de qualidade musical duvidosa.

Certamente levaremos um bom tempo ainda, se é que teremos essa oportunidade, para reeditarmos uma geração como aquela que participou deste festival. Enquanto na terrinha verificamos a chegada de seres extraterrestres da "música" brasileira, em eventos "populares" movidos pelo interesse comercial, durante a semana tivemos a possibilidade de participar desse debate em torno de uma experiência histórica importante, o festival de 67.

Paradoxalmente, um debate durante a semana em que celebramos nossa miséria cultural. Fica o gostinho de ter participado de um grande debate com músicos de nosso chão e do experiente Hilton Valente, figura muito humilde e carismática. Todos eles também nos brindaram com canções da época do festival. Realmente, um grande espetáculo.




Escrito por Renato Polli às 19h24
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