Meu perfil
BRASIL, Sudeste, JUNDIAI, RIO ACIMA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, French, Animais, Música



Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL - O melhor conteúdo
 BOL - E-mail grátis




Blog de renato polli
 


Humanismo crítico – 13.08.2013

            Em uma reunião política da qual participei, afirmei que minhas posições ideológicas tendiam para o humanismo. Um colega, citando um autor estrangeiro, alegou que o humanismo é uma forma de conservadorismo. A memória intelectual pode nos trair. Na história do pensamento brasileiro encontramos uma gama de expoentes que atestam justamente o contrário, como Paulo Freire, Florestan Fernandes, Milton Santos.. Como é sabido, Freire foi um dos mais destacados ativistas políticos brasileiros, indicado inclusive ao prêmio Nobel da Paz.

            Talvez quando falte a análise dos conceitos, as interpretações sobre os mesmos venham carregadas de preconceitos. O humanismo está associado ao discurso ético e se caracteriza como uma atitude essencialmente política. Como demonstrou Aristóteles, a ética é um tratado político. Desta forma, nunca uma proposta humanista poderá estar deslocada da política, especialmente da política com “P” maiúsculo. Como bem define Mário Sérgio Cortella, o humanismo é uma constante busca de significação para a existência, nesse processo natural e dialético que é a vida. As relações humanizadas levam sempre à desmobilização dos aviltamentos do humano, promovendo uma aproximação entre as pessoas. Trata-se de uma dinâmica cultural que tem como finalidade libertar os homens e mulheres da condição de objetos, para torná-los sujeitos da história, autônomos, conscientes, solidários. Estamos falando da construção de nossa identidade como seres humanos e como seres políticos, cuidadores da sociedade. O humanismo não deve ser considerado como uma postura conservadora. O discurso humanista não crítico talvez, mas a prática não.

            Quando ainda aluno de graduação, um dos meus professores, um importante filósofo brasileiro, contou-nos sobre suas experiências como consultor ético em uma equipe de neurocirurgia em um famoso hospital. O chefe da equipe de residentes solicitava que analisassem o quadro clínico de determinados pacientes. Qual não era a surpresa quando, após vários “procedimentos técnicos”, os pareceres conflitavam com as causas das moléstias que acometiam os doentes. Durante as aulas, meu professor alertava sobre como a falta de cuidado com o humano pode transparecer no uso de técnicas frias que desconsideram o próprio humano.

            Guardei a mensagem até hoje. E penso que em qualquer atividade profissional, de qualquer natureza, a atitude cuidadora, um humanismo crítico, o respeito à experiência vital do outro, como digo, é condição imprescindível para compor nossa ação política. Caso contrário, em nome de um discurso político, aí sim, seremos conservadores, por desconsiderarmos a necessidade de humanizar as nossas relações.

 

 



Escrito por Renato Polli às 22h33
[] [envie esta mensagem
] []





7/8/2013


A sombra de um sonho

 

Márcia Tiburi, filósofa brasileira, evoca um dizer de Shakespeare, numa de suas aparições no programa "Sempre um Papo", discutindo o tema da felicidade, para se referir ao sentido da vida: "a vida é uma sombra". Reforça o dizer, insistindo que a vida é "a sombra de um sonho".

Intriga-me, nas cenas do cotidiano, que essa sombra desse sonho esteja em curso, na atitude simples e cuidadora, ao mesmo tempo resignada, de uma varredora de rua. Ou nos relatos de meu pai, que aos 74 anos, lembra-se dos nomes de colegas de classe do primeiro ano da sua vida escolar. As coincidências da vida, as aproximações entre pessoas, fruto do acaso. As separações e desilusões. Nesse sonho que se constrói e que é apenas uma sombra, a história de cada um vai sendo tecida, nesse emaranhado de agires e sentires que nos dão forma como seres vitais.

Em grande medida esse sonho não é pensado e, por essa razão, torna-se sombra dele próprio. Mesmo que sejamos autores de nosso processo histórico, em grande medida há percalços e vicissitudes que nos fazem reféns de um jogo de encaixe de peças. Nem todas vão se encaixar. Por mais que pensemos que temos o controle do nosso existir, há situações que escapam por entre os nossos dedos. Mitos pragmáticos nos fazem crer numa eficácia administrativa da vida. Ledo engano. Lembremos da máxima evangélica que diz que se soubéssemos em qual hora viria o ladrão, nos colocaríamos em vigília. Não significa que não conseguimos prever, projetar, organizar, aprimorar. Seria viver sem sentido não encontrar nenhum prazer, nenhum sonho para ser sonhado. Mas eles serão sempre limitados, efêmeros, já que tudo passa. 

Gosto de visitar os cemitérios. Em parte por interesses de pesquisa como historiador. Por outro lado, ao olhar para aquelas fotografias, fico imaginando quantos sonhos, muitas sombras de sonhos não concretizados. São olhares tristes ou alegres, mas concretos, cativantes. Eles me deixam impressionado, pela sensação de rapidez que nossa passagem pela vida material traz. Algumas daquelas pessoas conviviam conosco até outro dia e já não se encontram mais aqui. O que permanece é a memória de realizações, ao menos durante um tempo, se for preservada por aqueles com quem convivemos. Geralmente não é.

Há a necessidade de esquecimentos também, para que "o curso normal da vida" prossiga. Mas o vivido fica, permanece na memória. E as sombras da vida que foi um sonho, permanecem como sombras. E a vida não vivida, que é sonho, desejada, continuará sendo apenas a sombra de um sonho. A única possibilidade de que a vida faça sentido é que procuremos alimentar alguns sonhos que não sejam apenas sombras. Neste caso, penso que pequenas realizações são poderosos sonhos sem sombras.



Escrito por Renato Polli às 22h32
[] [envie esta mensagem
] []





31/7/2013


Riscos da existência

 

Inspirados em filósofos como José Ortega Y Gasset, muitos estudiosos da filosofia destacam que não há como separar o que somos das circunstâncias em que nos inserimos. Tudo é aprendizado e mudança, nada é definitivo. Para Gasset, existe uma razão vital que supera a razão por ela mesma, descolada do mundo sensível, que acentua o fato de que tudo é relativo. Apesar de inspirar boa parte do pensamento conservador no Brasil, Gasset também pode ser relacionado ao discurso de pensadores que analisam o processo de formação humana e se dedicam aos estudos no campo da ontologia, pregando o sentido aberto da vida. Paulo Freire falava em inacabamento e, muito embora venha de outra escola de pensamento, vê o ainda não realizado, o inédito-viável, não como uma impossibilidade, mas como intenção de novas construções históricas.

Há perigo no existir, dizem alguns dos seguidores de Gasset. Mas esse perigo também é relativo. Podemos aceitar ou não os limites que nos são impostos, em dadas circunstâncias. Criados para a passividade e a aceitação resignada provenientes das violências simbólicas e diretas que emanam do social, nem sempre devemos ser coniventes com o controle, os interditos à comunicação e à boa convivência. Não é fácil existir, nem muito menos conviver. Por vezes nosso discurso em favor do respeito às diferenças se perde em práticas centralizadoras, opressivas, intolerantes. A coletividade exige muito esforço do indivíduo. Em função das invasões culturais, dos efeitos de uma razão instrumental, que sempre ressalta o plano das individualidades, anula-se o sentido da vida centrada no interesse comum.

O risco de nos considerarmos sabedores demais, capazes demais, únicos, se torna muito ameaçador. As subjetividades, que nada têm que ver com individualismos puros, muitas vezes são sufocadas quando assumimos esse papel, direta ou indiretamente, de anular a percepção do outro sob o manto de uma suposta razão acima da experiência sensível, como apontava Gasset. Cada experiência sensível é única.

Em qualquer projeto coletivo, sempre existe o risco de aparecer a exacerbação do eu em detrimento do nós. Existe o risco de aparecer a comparação entre capacidades, o apontamento de falhas no outro, o assoberbamento. Mas, como um processo aberto, existe também a possibilidade da revisão, do refazer o pensar e o agir, para, quem sabe, prevalecer o interesse comum. Tarefa hercúlea, sobretudo em tempos de multiplicidade de olhares vesgos, que esse movimento torto chamado de  "pós-modernidade", proporcionou nas últimas décadas. Em nome dessa multiplicidade, vencem o egoísmo, o pragmatismo e a competição. Nada mais neoliberal.



Escrito por Renato Polli às 22h31
[] [envie esta mensagem
] []





Os Homens-Livro - 27.02.2013

No célebre romance de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, adaptado para o cinema pelo cineasta François Truffaut, num futuro distante a leitura seria completamente proibida e os livros deveriam ser incinerados. A crítica do autor se dirige aos modelos de sociedade e instituições que vislumbram como antissocial e hedonista a manifestação livre de opiniões.

Num dos trechos do filme, no diálogo entre o personagem principal, o bombeiro (aqueles que se ocupavam de incinerar os livros) Guy Montag e seu superior, fica patente a ignomínia social antirracionalista. Ao descobrir uma biblioteca clandestina (cena paradoxalmente parecida com uma outra, de “O Nome da Rosa”), diz o superior ao bombeiro: “Toda essa filosofia, vamos nos livrar dela. É ainda pior que os romances. Pensadores, filósofos, todos dizem exatamente a mesma coisa: eu é que tenho razão, todos os outros são idiotas. Em um século, dizem-nos que o destino do homem está predefinido. No seguinte, dizem que ele tem liberdade de escolha. Não passa de uma moda, só isso. Filosofia.”

Nesta fala subjaz a denuncia aos mecanismos de alienação e desprezo pelo conhecimento, que pode ser verificado cotidianamente nas formas de contraposição ao pensar filosófico que, consciente ou inconscientemente, muitos reproduzem, como os imbecis citados pelo filósofo espanhol Fernando Savater em seu livro “Ética para meu filho”. Papagaiando meia dúzia de bobagens primárias e sem sentido, supõem que seu pensar (que não deve ser desprezado num processo dialógico, obviamente), está acima de qualquer suspeita. Como se, igualmente à denúncia que aparece no diálogo do filme, os filósofos é que fossem, ao contrário, defensores de causas absolutas. Nada mais desproposital.

Quem está minimamente familiarizado com os pressupostos da filosofia, saberá que a base da elaboração de razões aceitáveis e consensuais é o processo ao qual Jurgen Habermas chama de “Agir Comunicativo” e que o educador brasileiro, Paulo Freire chamava de “Ação Dialógica”. Por medo do diálogo, as instituições amordaçam os indivíduos, que como macaquinhos amestrados do circo de variedades (com todo respeito que se deve aos nossos colegas primatas) ficam cutucando com irracionalidades o que é do plano da racionalidade. Por essa razão, talvez, os filósofos não consigam aderir incondicionalmente a nenhuma causa absoluta, porque a suspeita é sua matéria prima.

Por fim, na obra de Bradbury, os homens-livro são aquelas pessoas que, por força de uma sociedade reacionária, precisam decorar obras inteiras, para preservar a memória do conhecimento desprezado. Uma boa dica para quem está ingressando no mundo acadêmico. 



Escrito por Renato Polli às 22h26
[] [envie esta mensagem
] []





EDUCAR PARA A VIDA PÚBLICA - 13.03.2013

A educação clássica teve como fundamento a preocupação em formar o homem público, para além das fronteiras do pessoal e do privado. O bem individual e a ação política deveriam convergir para o interesse da coletividade. Devido aos percalços do processo histórico, a prática do ensinar, em diferentes momentos, tornou-se uma tarefa privada, pouco voltada para o coletivo e, seu resultado, um direito de poucos.

Em recente matéria publicada numa revista de cunho alternativo no Brasil, os jornalistas americanos Bill Ayers e Rick Ayers, da Monthly Review, de Nova Iork, analisam o atual processo educativo em seu país, subordinado à lógica do capital. Analisando os meandros das políticas neoliberais desde o início dos anos 70, indicam que a reforma escolar americana coaduna com os intentos dos planejadores corporativos, das instituições privadas e dos lobbys reacionários que defendem as elites conservadoras. As escolas são vistas como empresas, os professores como funcionários e os estudantes como produtos.

No plano pedagógico, os valores referenciais são o mérito individual, a eficácia, a passividade, a obediência e o anti-intelectualismo, apoiados em práticas que utilizam pequenas tecnologias, reforçando a matriz do trabalho pedagógico: punições, notas, avaliações, julgamentos, hierarquias rígidas. Até mesmo as abordagens críticas são apropriadas para disseminar a ideia de que os alunos devem escolher os temas de pesquisa e estudo, postulado que muitos dizem provir do educador brasileiro Paulo Freire, mas que serve ao ensino dirigido e formas de domesticação, não de conscientização, como queria Freire. A abertura para o comércio de projetos e soluções “educativas” é um passo adiante. Não é por menos que muitas redes de ensino são assediadas todos os dias por vendedores de soluções, em todas as frentes, sem um mínimo de discernimento sobre o papel social da educação. Presos à falta de criticidade pedagógica, muitos gestores se submetem a essa lógica e, pior, aproveitam-se dela para atrair vantagens pessoais.

Uma educação para a vida pública, centrada nos princípios da justiça e da libertação integral da pessoa humana, passa ao largo desta compreensão privatista de educação, que produziu, a partir dos anos 90 no Brasil, aberrações pedagógicas em nome de uma política pública para a cidadania.

Indivíduos atuantes publicamente precisam de espaços escolares em que sua criticidade se dirija para aquilo que os jornalistas indicam em seu texto, os “momentos ensináveis”, uma espécie de trabalho que se sabe inacabado e sempre incompleto, de construção de um processo emancipatório através da educação pública.



Escrito por Renato Polli às 22h17
[] [envie esta mensagem
] []





A Política Sem Afeto - 17.04.2013

Desde os clássicos, a atividade política sempre esteve atrelada à ética. Não há como separar, defendia Aristóteles, o bem social que se busca no cuidado com o que é comum, dos valores éticos. A ética e a política possuem o mesmo objetivo, o bem do ser humano.

            No entanto, contaminados pelo espírito da competição, deixamos de levar em conta o interesse de todos para, infelizmente, defender os próprios, traindo os sentimentos coletivos que deveriam nos mover. A direita sempre incorreu neste desvio, nem há muito que comentar, já que seu discurso político sempre se sustentou em interpretações equivocadas sobre os fundamentos do próprio liberalismo econômico. A esquerda, no entanto, custa a aprender.

            Quando eu era jovem, no início de minha formação acadêmica, ainda seminarista, rebatia com rebeldia toda fala sustentada num discurso religioso adocicado, sem um pingo de consciência social. Aderia com fervor aos intentos da igreja progressista. Não que tenha sofrido uma recaída, nem cedido para certo humanismo conservador que prega uma pedagogia do afeto ou um amor incondicional. A raiva faz parte da formação psíquica de qualquer um. Sinto que me enganei em algum aspecto.

            Falta solidariedade e consideração entre os militantes da esquerda. O pragmatismo engalfinhou a perspectiva de longo prazo e, como uma comichão que nos atordoa, nos debatemos como se inimigos fossemos. Os adversários políticos dos que foram forjados no campo da esquerda se esforçam para reproduzir essa lógica insana do aniquilamento, própria dos fundamentalismos baratos. E não sei por qual razão, em vez de reagir com a altitude moral, com mais capacidade intelectual de lidar com as críticas infundadas, militantes da esquerda recorrem aos mesmos artifícios da direita. Práticas difamatórias, conflitos desnecessários, mesquinharias cotidianas, acentuam o caráter corrosivo dos interditos à política com ética.

            O afeto, diria, menos que a cordialidade subserviente sobre a qual nos alertou Sergio Buarque de Holanda, falta ao mundo da política. Em primeiro lugar, militantes da esquerda execram qualquer adversário, como se todos estivessem no mesmo balaio. Depois, internamente, reproduzem a mesma lógica, quando cedem à falta de afeto e companheirismo. Prática abominável, intolerável para quem se diz defensor dos interesses coletivos.

            Remeto-me aos idos da juventude e me penitencio, afinal, para um cristão de formação e pouco prático na caridade, devo rever alguns de meus conceitos, quem sabe, e, por vias mais críticas, defender agora, uma causa que falta ao trabalho político cotidiano: a da construção de relações amorosas mais profícuas e respeitosas.



Escrito por Renato Polli às 22h15
[] [envie esta mensagem
] []





O idiota político – 24.07.2013

 

Revisitando um gostoso texto em forma de diálogo, produzido por dois grandes filósofos brasileiros, Renato Janine Ribeiro e Mário Sérgio Cortella, ali encontrei algo interessante. Muita gente continua insistindo em dizer que “política é coisa de idiota”. Cortella esclarece que houve uma inversão no conceito, que em grego, idiótes, significa aquele que só vive a vida privada, recusando a política enquanto ação social conjunta. São aquelas pessoas que, insatisfeitas com os rumos da política partidária e institucional a confundem com o conceito mais amplo de política e acabam se desencantando, reproduzindo o velho jargão “não me meto em política”. O velho Aristóteles já dizia que a ética e a política possuem o mesmo objetivo, que é o bem do ser humano. Como pode, então, a busca pelo bem do ser humano se constituir como seu prejuízo?

Reduzindo a política à atuação dos partidos e agentes políticos, a maioria das pessoas não a percebe como toda ação que nós humanos - seres políticos por natureza - empreendemos para atingir um objetivo, seja individual ou coletivo. Com a ideologização e a colonização da vida social, a individualização dos processos de existência levou cada vez mais a apartar os sujeitos do coletivo. Invadida pelos interesses os mais variados, a política enquanto mobilização e luta social, mesmo que aparentemente seja organizada em função de fins coletivos, pode abarcar desejos corporativos, individualistas, nada abrangentes. Há casos em que “em nome do bem do país”, grupos específicos lutam por interesses que são só seus. Desta feita, reforçam a percepção filosófica de que tenham sido contaminados pela idiotice.

Quando não há organização, objetividade, respeito às normas de convivência democrática e efetiva prevalência dos interesses públicos, a idiotice campeia. Há hoje correntes dentro dos próprios partidos políticos atingidos por crises de identidade, movimentos de parlamentares e militantes que propugnam uma moralização da política institucional, que proporcione uma limpeza ética nos trâmites das operações que se dão nos bastidores. Quanto mais transparente, clara e honesta a vida política, menos idiotas teremos.

 

Apesar de não vislumbrar com otimismo alguma mudança no modo como em geral os cidadãos percebem a atuação política, já que a maioria desconhece o que de fato está por trás das ações de grupos poderosos, creio que o debate sobre o retorno a um estado de vida política mais honesto e democrático tem sido frutífero. Quanto mais fundamentado for este debate, menos idiotas haverá enfiando a cabeça no buraco e perdendo a noção do que é interesse público. 



Escrito por Renato Polli às 22h12
[] [envie esta mensagem
] []





O ódio político – 17.07.2013

 

O Brasil sempre foi um país de contrastes sociais dissimulados, uma profusão intensa de estados de violência escondidos nos subterrâneos da história, que se cotidianizaram. Segundo o historiador Leandro Karnal, as nossas guerras civis são denominadas com eufemismos como “Revolução Constitucionalista”, “Conjuração Baiana” ou “Revolta da Chibata”. A violência enquanto parte integrante de nossas relações sociais fica obscurecida pela vergonha em assumir-nos assim, desejantes da aniquilação do outro. Questão meramente econômica? Condição natural? Resultado das relações socioculturais?

A luta de classes é apenas uma constatação. Fruto dessa dinâmica própria do sistema capitalista, o chamado “consumo”, que nada mais significa do que “aniquilar”, enaltece na humanidade o que já era próprio na historicidade dos processos “civilizatórios” anteriores: existe a violência, existe o ódio de uns contra os outros, quase sempre movido por interesses privados. Ninguém está imune. Nossa moral cristã até que tenta amenizar o fato, mas não consegue. Mais fácil organizar para destruir do que para construir. Mais fácil e imediato reagir contra “um outro que me prejudica”, que aquela paciência educativa do pai que insiste em, utopicamente, apontar para o filho que no horizonte está o bem. Mas como resultado aparece o líquido e certo: a violência direta ou simbólica, nos espaços em que nos encontramos. Ela se apresenta como racismo, calúnia, difamação, agressão física ou simples comentário nas páginas de relacionamento, quando ensejamos a morte política do outro. Nada mais sôfrego, espelhamento do que somos: nada amigáveis.

Nenhuma desconsideração ao fato da existência de aberrações que se cometem em nome do interesse público. Há armadilhas na democracia, que sempre falha, abriga desvios de conduta inadmissíveis. Mas não será com sermões que corrigiremos esses desvirtuamentos, sobretudo em tempos de “anormalidade” política, insurgindo-nos contra quem julgamos responsáveis por tudo o que acontece no mundo, com um ódio político mortal. Coitados dos pobres ocupantes de cargos públicos que levam a sério sua tarefa. Esse ódio se manifesta com palavras, escritas e ditas, por pessoas que possivelmente nunca estiveram sob a lente de um microscópio para perceberem sua humanidade falha. Mas colocar outros sob esta lente é tarefa bem comum. Idealismos a parte, o mundo é o que é e só poderá se tornar diferente na medida em que segurarmos nossos impulsos destrutivos. Se é que isso é possível.

 

 



Escrito por Renato Polli às 22h11
[] [envie esta mensagem
] []





E agora, Joseph? – 10.07.2014

 

Numa licença poética, recorro a um dos grandes brasileiros de Minas Gerais, rei das palavras, para perceber em seus versos, qual interpretação sempre aberta que a poesia permite, um sinal quase profético de que nem todo José consegue tudo. Há vários Josés, mundo afora. Alguns singulares, outros nem tanto. Certamente não sou.

No primeiro conjunto de ideias, a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu. No segundo, está sem ninguém, sem discurso, nada veio, tudo mofou. E agora, Joseph? Você que tinha a chave na mão e a porta não abre, porque não existe porta. Você é duro, Joseph. Está sozinho no escuro, sem teogonia (grande coincidência). Para onde você marcha Joseph? Agora não marcha, renunciou calado ao projeto que arquitetou? Seus desafetos não terão sua memória restaurada, sua dignidade. Foram centenas de teólogos, bispos, padres, leigos, alijados por completo de sua fé mais sagrada, cerne da mensagem evangélica original: a descrença profunda na acentuação da dimensão hierárquica, predominante na eclesiologia das últimas décadas. A onda conservadora dos padres sem teologia, que ocuparam os espaços disponíveis nos ambientes sociais, alardeando sua fraqueza intelectual, semeando o ódio e a contenda onde deveria imperar aproximação e fraternidade. Pior, afastando parte da igreja dos pobres.

 

E como diz um velho ditado, “nada como o tempo”. A reparação não virá, mas o realinhamento, quem sabe? O papa Francisco, parece dar sinais de que nem tudo é dimensão hierárquica. Pode haver um retorno às origens? Ainda não sei, talvez. Uma dúvida, porque na mesma semana aparecem essas duas notícias contraditórias. Por um lado, a possibilidade de canonização de João Paulo II, que era assessorado por este Joseph, que virou Bento XVI. Juntos patrocinaram uma das maiores perseguições ideológicas já vistas no seio da igreja. A outra notícia dá conta de que o sucessor de Ratzinger, o Joseph em questão, o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, pretende colocar os pingos nos “is” no que se refere às interpretações maliciosas sobre o pensamento da libertação. Amigo de Gustavo Gutierrez, um dos mentores da Teologia da Libertação, o Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé ajuda a desmistificar um conjunto de crenças distorcidas sobre essa vertente teológica em uma publicação conjunta. O fato foi divulgado nesta semana no blog do teólogo brasileiro Leonardo Boff. Depois da vergonhosa campanha difamatória, da perseguição contra os adeptos da Teologia da Libertação, décadas seguidas, e o silêncio (não obsequioso) ao qual se submeteu, fica a pergunta crucial: e agora, Joseph?



Escrito por Renato Polli às 22h10
[] [envie esta mensagem
] []





O problema é meu

03.07.2013

 

Depois de muito tempo, volto a um tema muito caro. Nenhuma articulação intelectual, apenas um desabafo, como cidadão, frente ao problema crescente do abandono de animais. Nem mencionarei os maus tratos, fico apenas na questão do abandono. Faço isso motivado pela perda de um animal de estimação neste final de semana.

Em fins de 2009 ela apareceu no meu ambiente de trabalho. Prática comum era enxotar, espantar, desresponsabilizar-se. Ou ainda, a mais covarde de todas, transferir o problema para terceiros, o que acho lamentavelmente mais desumano e cruel, porque é uma prática consciente. Estava praticamente morta, muito debilitada. Mas com coragem, eu e uma amiga assumimos seus cuidados iniciais e ela acabou por ficar. Em poucos meses estava três vezes o tamanho original. Infelizmente, uma doença a acometeu e ela se foi. Mas teve uma sobrevida de quase quatro anos desde aquele momento em que foi acolhida.

Creio que aqui reside uma das questões centrais do problema da causa animal. Por um lado, a complexidade da questão exige mais política pública e menos ação isolada. Por outro, sendo insuficiente a política pública, entram em cena os protetores, gente de bom coração, geralmente desprezada pela sua atitude emergencial e acolhedora. Tratam-nos como se nada soubessem, como se não entendessem que o problema exige conscientização, técnica e política pública. Ledo engano. Eles precisam ser ouvidos.

No fundo, creio que todo protetor faz aquilo que ninguém faz, torna o problema um problema seu, o assume. É muito fácil terceirizar problemas, “mandar” as pessoas os resolverem e “se livrarem” dos animais indesejados. Alegam-se mil desculpas esfarrapadas. Em escolas, por exemplo, falam “do perigo que pode ser causado às crianças”. A ideia de integração se transforma em desagregação e perde-se a oportunidade de envolver os pequenos, desde cedo, num clima de responsabilização por uma das demandas ambientais mais cruciais no meio urbano.

 

Próximo aos órgãos técnicos, dias a fio, pessoas que não possuem nenhuma consciência ou responsabilidade, depositam aos montes, animais totalmente desprotegidos, jogados ao léu, como se nada fossem. Os protetores entram em cena e “cobrem”, ao menos em parte, essa “ausência”. Creio que uma junção de esforços e uma tentativa de diálogo rápido se fazem urgentes, já que a boa vontade existe de todos os lados. Basta que cada um compreenda o lado do outro. Nem só técnica, nem só coração, mas unidade na ação. Humanizar a técnica e contribuir para que a política pública seja efetiva. Desapego das opiniões fechadas e capacidade para agregar, ouvir, dialogar. Se não for dessa maneira, o problema será sempre do outro.



Escrito por Renato Polli às 22h09
[] [envie esta mensagem
] []





Estado e educação moral

26.06.2013

 

             As irracionalidades nos circundam e para combatê-las, nada como a velha e boa erudição.  Em meio aos claudicantes apelos pelo enfraquecimento do jogo democrático, participei na última sexta feira, da banca de defesa de tese de doutorado em educação, na Faculdade de Educação da USP, de meu grande amigo e ex-aluno de graduação numa universidade em São Paulo, Sidnei Ferreira de Vares. Sua tese: “A formação do cidadão republicano: sociologismo, individualismo e educação moral em Émile Durkheim.” Um estudo que desmistifica uma série de interpretações sobre o pensamento do pai da sociologia. Alguns aspectos me tocaram, especialmente pela conexão com o momento presente.

Para Durkheim o Estado pode, de fato, engolir as pessoas e mimetizar as demandas da sociedade civil, movido por paixões que nem sempre são base para o interesse público. Os anos 90 no Brasil não desmentem este fato. Mas há uma diferença entre o interesse dos indivíduos, legítimos, conectados ao bem coletivo e fundado numa educação moral, do egoísmo radical e da subjetividade vulgar. Opiniões temos aos montes, bases teóricas nem todas possuem. E de vulgaridades interpretativas os últimos dias estão recheados.  

Durkheim, um liberal, defendia um Estado aglutinador e capaz de formar para uma vida moral plena, por adesão consciente dos cidadãos. O individualismo bruto, a privatização e a precarização da consciência coletiva, provocam a quebra do interesse geral.  Quando o Estado troca sua função coletiva pela defesa dos interesses privados, esquece-se do poder dos agentes políticos, que reagem. E que papel tem a escola? Transmissão de experiências de geração em geração é algo ruim? Há uma unidade moral que precisa ser buscada através da educação, frente aos avanços do egoísmo radical? A coesão não é prática coercitiva, pode se dar pelo desenvolvimento da autonomia. E nem sempre o Estado e a escola são coercitivos. O Estado é um órgão pensante que deve promover o indivíduo e não oprimi-lo. A educação está vinculada à socialização e implica formar para o respeito a normas básicas de convívio. Nem sempre a resignação se traduz por passividade. A questão é se temos condições, no jogo do capitalismo, de construir padrões morais arrazoados livremente.

 

Abandonando a consciência moral, as políticas públicas educacionais dos anos 90, capitaneadas pelos neoliberais, ajudaram a promover esta aberração política que ora se mistura com o legítimo interesse de alguns movimentos sociais. 



Escrito por Renato Polli às 22h08
[] [envie esta mensagem
] []





A suavidade política

19.06.2013

 

            Em tempos em que a legitimidade de movimentos de rua é colocada em debate, aparecem em minha memória fragmentos de experiências, quando fugir das bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes de borracha era condição habitual para um professor da escola pública. Tenho a impressão de que abdicamos da capacidade de cotidianizar a prática da mobilização. Em parte porque a onda neoliberal fez o seu papel sujo, de empobrecer a razão e arrefecer o sentido ético da solidariedade social. Nos anos 80, estávamos lá sonhando os sonhos possíveis que uma redemocratização por vias tortas ensejava.

            Creio que naquela época havia uma suavidade política nas lutas, sobretudo para os cristãos católicos como eu, que bebiam na fonte do discurso libertador. Hoje elas me parecem intestinas. Talvez seja uma ingenuidade minha imaginar que as pessoas estejam dispostas a diminuir o ritmo frenético com o qual se atacam. Inclusive aquelas que estão no mesmo campo político. Falta solidariedade na divergência. Tenho certeza de que este também é um efeito da colonização mental patrocinada pela loucura do enfraquecimento do interesse público. E acabamos privatizando a luta social, disputando como idiotas quem é que está com a razão.

            Muitas instituições que antes cumpriam um papel esclarecedor, de formação política e ampliação da consciência social, como as igrejas cristãs tradicionais, os sindicatos e os partidos políticos, foram se fossilizando no tempo, intermeadas pelo pragmatismo e pelo doutrinarismo. Não nego que devamos arregaçar as mangas para que as mudanças se façam no campo da prática. Mas a perda de massa encefálica no campo político é visível. Nenhum idealismo aqui, apenas uma constatação de que essa perda não foi desejada, mas imposta.

            Há ainda espaços e condições para recuperar o desejo de ver as coisas melhores através da mobilização política. As manifestações da atualidade podem contribuir para isso. E como em toda contradição existente num social forjado no ideário liberal, há vantagens e desvantagens na associação entre gregos e troianos. Temo que neste contexto atual também esteja presente o desejo de aniquilação, armadilha que funciona como areia movediça, já que nada se constrói nessa base. No jogo da identificação do quem é quem, há verdades e inverdades.

 

            Horrível pensar que tenhamos que desconfiar o tempo todo de quem está ao nosso lado. A suavidade política à qual me refiro, presente naqueles momentos de luta social dos quais participei, caracterizava-se mais pela fraternidade entre os que lutavam. Não havia desconfianças, apenas a certeza de que ao nosso lado estavam pessoas iguais a nós. 



Escrito por Renato Polli às 22h07
[] [envie esta mensagem
] []





Superar a intolerância – 05.06.2013

 

Intriga perceber que em todos os campos da atividade humana, grassa a intolerância, seja aquela patrocinada por diferenças no campo ideológico ou mesmo a que, sem necessidade alguma, alimentamos ao nos imaginarmos melhores que os outros. Diz o evangelho: “quem, entre vós, pode aumentar um côvado à sua estatura? (Mt, 6: 27) ”. O aumento de estatura, enquanto uma metáfora, pode significar inclusive a qualidade moral elevada, aquela que proporciona ao que tolera, uma bondade nunca intrínseca, que surge do nada, mas que é fruto de um exercício contínuo. Nesta empreitada, a razão sempre ajuda. Mas há também o coração. Se não somos capazes de controlar nosso próprio crescimento biológico, como é que vamos controlar nosso crescimento moral? Creio que há indicativos mínimos de como fazê-lo.

Se o coração não estiver imune às impurezas espirituais que nos fazem classificar nossos semelhantes pejorativamente, nunca atingiremos esse patamar moral. Tarefa difícil, mas não impossível. Como diz Márcia Tiburi em uma entrevista, ao referir-se ao conceito de areté, que os gregos utilizavam para falar das coisas enquanto portadoras de utilidade, ser uma pessoa inteira não significa ser santo, nem muito menos o diabo. Uma pessoa inteira de verdade, diz a filósofa, é a que se conscientiza como limitada e potencialmente capaz para criar magnanimidades incomuns, já que todos estamos contaminados por esse espírito de competição que o capitalismo nos impõe, colonizando nossa percepção sobre nossas relações.

Na verdade, invertendo Jean Paul Sartre, eu diria: “o inferno somos nós”. Sim, porque insistimos em infernizar a vida dos outros. Desta forma, não é o outro nosso inferno, mas fazemos um inferno de nós mesmos ao perceber o outro como um inferno. Muitas vezes sem motivo algum, como já disse.

 

Talvez os psicanalistas possam nos oferecer pistas mais interessantes neste aspecto, ou seja, qual é a de um ser humano que se pretende além de si mesmo, alguém melhor, fazendo tudo para piorar as coisas para os outros? Nada mais contraditório. A infelicidade, enquanto uma desgraça moral total andará sempre de mãos dadas conosco quando desejarmos o mal a outras pessoas. Se recorrermos ao imperativo categórico de Kant, teríamos que nos lembrar o tempo todo: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua vontade, uma lei universal." O velho e batido lema que diz que “o que vale para mim deverá valer para os outros”. Ou ainda: “o que desejamos para nós devemos desejar para os outros”. Toda ação moral, portanto, nunca deverá se constituir como uma agressão a outra pessoa, seja ela de qualquer natureza. A intolerância, partindo deste pressuposto, é a parceira fiel da imoralidade.



Escrito por Renato Polli às 22h06
[] [envie esta mensagem
] []





A maioridade mental – 24.04.2013

 

Como filósofo eu não poderia deixar de participar desse significativo movimento em favor da ampliação da maioridade mental. Não é possível que tantas pessoas sejam vitimadas por essa violência endêmica que assola nossa sociedade, a ignorância. Precisamos defender penas mais severas contra os algozes da racionalidade, que ficam sustentando um modelo de escola desumano, onde grassa a intolerância, o preconceito, a vileza de espírito, os apelos à competitividade e à eficiência. Como ficar imóveis diante dos interditos à racionalidade, que circulam pela seiva do sistema circulatório de nosso tecido social? Como não se manifestar diante do sofrimento das vitimas da falta de razão, sejam os que cometem delitos, quanto os que perecem por suas ações?

Temos de exigir que essa onda de imbecilização, esse empobrecimento moral que nos atordoa, frutos de uma racionalidade instrumental que aprisiona e provoca o domínio, seja de vez deitada ao nível da terra. Haveremos de reagir contra esses estatutos e códigos de racionalidade tão arcaicos, descontextualizados e que impetram a insolência cognitiva entre nós. Urge construirmos outro modelo de entendimento mútuo, comunicativo, em que o diálogo de alto nível provoque consensos em torno do que é ético e justo. Caso contrário, onde estarão nossas crianças daqui a algumas décadas? O Centro Brasileiro de estudos Latino-americanos, com base no Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde, indica que cresceu 346% o número de homicídios contra jovens no Brasil, nos últimos 30 anos. Um dado alarmante, resultante - tenho certeza absoluta - de nossa insensibilidade perceptiva. Devemos desvelar, descortinar o véu de nossa pobreza mental.

Como dizia Paulo Freire, não é possível dissociar a decência da boniteza. Assumamos nossa feiura e fraudulenta capacidade racional, quando invertemos causas e consequências de problemas complexos, tentando resolvê-los com jargões inconfessavelmente pobres intelectualmente. Justificamos a solução irracional através do antigo padrão normativo do olho por olho, dente por dente.

 

É sem precedentes na história desse país o descaso com a racionalidade, que vem sendo alimentado pelas supostas bases teóricas de um tal modelo neoliberal, que se arroga a senhor das soluções para os problemas que ele próprio inventou, entre eles a nossa indigestão ao pensar. Mas fico feliz em perceber a existência de tantas assinaturas nesse manifesto nacional em favor da elevação de nossa compreensão sobre o mundo social. E assino embaixo.



Escrito por Renato Polli às 22h05
[] [envie esta mensagem
] []





Sentimentos éticos – 19.04.2013

 

Os teólogos e cientistas da religião que me perdoem, mas não experimentamos a divindade somente através da religião. Deus, a quem prefiro chamar de “espírito da bondade universal”, se manifesta de muitas maneiras. Como um profissional da filosofia, penso que há uma racionalidade ética, que não se constitui somente pela razão, que verificamos na imanência do existir. No nosso cotidiano encontramos situações emocionais, afetivas, que se imiscuem com o intelecto e que sobrepujam a necessidade da profissão religiosa de qualquer natureza. Não que não se deva admitir que a crença tenha uma função importante na constituição de nossa experiência vital.

No entanto, a vivência religiosa intramuros nem sempre garante a qualidade ética da fé. Há usos os mais variados que se fazem da religião, que implicam até mesmo desvios éticos. A religiosidade efetiva prescinde da prática institucionalizada. Singularidades do dia a dia confirmam essa sensação.

Episódios recentes contribuem para que eu amplie minha convicção de que há mais humanidade e bondade universal numa simples fala, numa tristeza criadora que nos interpela como pessoas, que na prática religiosa em si mesma. Livre de hipocrisias, esses eventos cotidianos fazem revirar nossas vísceras, para que nos debatamos conosco mesmo. Um deles foi a triste perda de uma filha de minha prima, uma moça jovem, muito jovem. O contato visual com suas fotografias e com o seu corpo inerte, transmitiram-me a sensação de um amor fraternal que a consanguinidade proporciona. Por um dos acasos do destino, suas feições lembraram a minha condição de filho e, sendo seu corpo depositado no mesmo espaço em que se encontrava o de minha mãe, mergulhei na profunda comoção da busca, sempre constante, do “espírito da bondade universal”, que um amor filial, materno, sempre nos proporcionará.

Durante uma reunião da qual participei, veio outra situação. Em geral somos avessos a manifestações públicas de emoção. Criticamos e negamos a possibilidade de que o sentimento ético emocionado seja compartilhado socialmente. O capitalismo faz tudo para estimular o prazer, mas nega a frustração, a perda, a dor, os sentimentos de compaixão e cuidado, a tristeza diante de uma injustiça. Uma agente pública chorar em uma reunião porque se compadeceu com as pessoas ignoradas socialmente, não me parece lugar comum.

 

Por essas e outras, acabo considerando que podemos nos tranquilizar diante das justas iras, dos “desequilíbrios” emocionais. Através desses sentimentos, conectados a algum estado de racionalidade, percorremos os caminhos da busca da “bondade universal”.



Escrito por Renato Polli às 22h04
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]