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Blog de renato polli
 


Fim das ilusões?

            No final da segunda metade do século XX e início do século XXI vimos a intensificação do discurso crítico negativo relativo às possibilidades da emancipação humana. Desde Nietzsche e posteriormente com a psicanálise, essa crítica tomou rumos, digamos fragmentaristas. Sim, porque nem toda crítica negativa enseja a impossibilidade. O eterno retorno nietzscheniano e o “aqui agora” psicanalítico carregam um tom reprovador quanto às mistificações em torno de um sentido para a vida, além dela própria. Creio que são contribuições fundamentais para uma concepção menos ilusória quanto ao que somos e podemos ser.

 Com a Teoria Crítica da Sociedade, proveniente do pensamento da Escola de Frankfurt, um reforço considerável nesta direção ganha força, sobretudo em Adorno, através do que se convencionou chamar de “dialética negativa”. Alguns dos seguidores dos pais da Escola de Frankfurt, como Habermas, não aceitaram o negativismo dialético de seus mestres e propuseram uma crítica refundadora da filosofia, alçando-a ao patamar de “guardadora de lugar” no espectro do conhecimento. No entanto, o discurso adorniano não se constituía como um fragmentarismo, mas como uma narrativa estelar, composta de vários insights racionais, dando lugar a uma esperança para a emancipação na obra “Dialética do Esclarecimento”.

            A partir dos anos 80, o chamado discurso pós-moderno, reafirmando o fim das metanarrativas, abriu mão, apesar de sua crítica ao projeto da modernidade possuir algum fundamento, dos postulados fundantes do pensamento iluminista: a crença na autonomia do sujeito, na ética e no processo histórico. Na sua esteira e, paralelamente, sobretudo na França, já vinham sendo delineadas as ideias do pensamento pós-estruturalista, na psicanálise e na filosofia, leitura densa e profunda, mas acentuadora do senso da desconstrução, menos que da construção.

            Os intelectuais que circulam nos campos da psicanálise e da filosofia parecem cair num beco sem saída agora: afirmar o categórico “aqui e agora” como única possibilidade ou, ainda, insistir num devir possível, mas improvável contemporaneamente. Há, no entanto, outras leituras, provenientes da Teologia, que sugerem o risco do apego às teorias que negativam a fonte mesma da vida humana: o sentido do inefável, da transcendência. Paulo Freire também acreditava nessa transcendência, propondo termos como inédito-viável e inacabamento, como esboços de uma ontologia em que a construção de nós mesmos contempla a consciência social do ilusório mundo capitalista e de seus condicionamentos, bem como das possibilidades éticas de um novo ser humano. Fico com essa impressão teórica.



Escrito por Renato Polli às 02h21
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Redenção e resistência

 

 

Não me parece coincidência que nesta última semana estejam tão próximas lembranças históricas tão intrincadas. Por um lado, a tradição milenar da comemoração da Páscoa, o grande êxodo hebraico e cristão, celebrado como uma redenção das amarras que aprisionam, seja a do cativeiro no Egito, como a da escravidão humana no plano das suas contradições. Por outro, o não longínquo 31 de março de 1964, fatídico percalço do acorrentamento da democracia, a subserviência forçada da cidadania pelos golpes físicos, simbólicos e morais que se instituíram contra a dignidade da pessoa humana em seu mais sagrado direito à liberdade.

Aqueles que, oprimidos pelas dores das limitações, resistem como podem, em nome de uma redenção que virá sempre, na medida em que a história se consolida como processo aberto. Os resistentes, em nome de uma crença que fundamenta um horizonte melhor, suportam o que for possível pela ética do depois, construída no agora.

E os nomes laicos e religiosos, celebrando a Páscoa da libertação do Brasil, se uniram em tom uníssono contra a ditadura, resistindo ao poder da tortura e do embuste político. Helder Câmara, James Wright, Paulo Evaristo Arns, Frei Betto, Tomás Balduíno, Pedro Casaldáliga, Paulo Freire, Herbert de Souza, Henfil, Vladimir Herzog, Santo Dias da Silva, Angélico Sândalo Bernardino, Luciano Mendes de Almeida, Frei Tito de Alencar e tantos outros corajosos brasileiros, de diversas crenças religiosas e políticas. Oxalá o Cristo da libertação continue, como força poderosa do cosmo, símbolo da unidade espiritual de todos os homens, de todas as crenças, a promover o alento da vontade de resistência diante dos interditos e desatinos dos quase 50 anos de espírito autoritário.

Que ele esteja presente, ainda, não apenas no coração dos justos, mas no seio das organizações que pensam o mundo da vida, as instituições que compõem o Estado, para que a pulsão de morte que prevalece no seio do atual modelo econômico não amplie. Os governantes promovam uma política econômica menos subserviente e atrelada aos ditames do grande capital. As políticas sociais e de preservação ambiental sejam melhor discutidas e que seu viés seja menos caritativo e mais transformador.

Que o preservacionismo se livre definitivamente do discurso economicista e que a natureza seja a razão mesma da sua manutenção. A redenção continue a ser sonhada e que nossa resistência não afrouxe diante de tantos resquícios da ditadura, identificados na pobreza cognitiva dos discursos políticos da atualidade, restritos ao tecnicismo que explica o inexplicável, abrindo mão do que é ético, decente e sagrado.



Escrito por Renato Polli às 23h51
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A imanência e a felicidade

 

 

Não, ela não está no mundo do etéreo. Não, ela não é um conceito fixo, definido. Todos a perseguem de alguma forma, mas parece que, mesmo assim, ela escapa por entre os dedos. Passam os dias e, em nome dela, são vendidos os seus correlatos materializados. Bens, situações, anseios os mais variados. Não damos conta de diminuir as expectativas. Ela continua lá, intacta, como se fosse um monolito, empedernida em nosso imaginário. A indústria cultural insiste em agregar-lhe significados práticos. Difícil que alguém consiga pensar um pouco antes de cair no conto do vigário, ou, como diria Odisseu, no canto da sereia da felicidade fácil. São ofertadas cotidianamente, no altar das devoções consumistas, as falácias propagandísticas da realização pessoal, os velhos fetiches da civilização capitalista. Nada de fraternidade, nada de solidariedade no mar do salve-se quem puder.

 

Embora situados fisicamente, podemos procurar atribuir algum significado plausível para o que fazemos neste campo da realidade existencial, a vida restrita em um corpo. Não que haja menos transcendência em nós ou menos desejo de totalidade porque somos feitos de carne e osso. Nem só de pensamento vive o homem, mas de todo sentimento que emana do coração. E coração se mistura com a razão: a felicidade possível pode ser construída na imanência mesma do viver, sem incorrer em superficialidades existenciais. Sim, é possível ser feliz sem ser banal.

 

É possível ser feliz sem ser alienado, mesmo contra toda a onda de mediocridade (no pior sentido da palavra) que se avizinha de nós. Nem é preciso muita coisa para sair do lugar comum. Basta, guardadas as devidas proporções do sofrimento de cada um, da angústia que sempre nos persegue, dos inevitáveis dissabores, das limitações, fazer algum esforço mínimo para pensar o que nos rodeia. A felicidade não está no distante mundo das ideias de Platão, nem muito menos embutida nas futilidades às quais nos apegamos, muitas delas fruto da colonização de nossa consciência. Decorre, então, a necessidade da filosofia, enquanto debate permanente, inquietação, discussão sobre o que realmente agrega sentido à existência. Talvez haja mais profundidade nas realidades mínimas e mais superficialidade no que imaginamos e projetamos como nosso bem. E o mínimo significa, inclusive, a condição material necessária para se viver. Nem pouco, nem demais. Apenas o que nos basta.



Escrito por Renato Polli às 23h50
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O poder e a glória

 

 

Não é de hoje que o poder temporal e as realidades espirituais se misturam. Na visão teológica unitarista de Santo Agostinho, as questões do sagrado se entrelaçam às da materialidade. A metafísica neoplatônica agostiniana supõe uma vida terrena tal, em que os desígnios divinos sobressaem-se à ação humana. Contemporaneamente, a dinâmica parece ter sido invertida, já que há um messianismo político que permeia o imaginário das lutas e das práticas em torno da construção de uma "cidade democrática". Como muito apropriadamente indica o filósofo Giorgio Agamben, a gestão da casa, confundindo-se com o celeste, tem permitido que as forças da exceção se tornem constituintes da governabilidade. Sacrossantas decisões empedernidas de um simbolismo glorificante suprimem a compreensibilidade sobre o que é justo e verdadeiro, democrático e benéfico para a vida social. Os domínios, instalados na fala e na prática dos que governam, passam à margem da compreensão sobre o embuste autoritário das cenas em que o choro faz reforçar o eco dos contentes com a mesmice. O reino e a glória dos governantes, a celebração e o ritualismo político, indicam que numa só tacada, ou canetada, resolvem-se problemas de proporção maior. Nada mais resta aos súditos da cidadania, que aplaudir os beneplácitos dos benfeitores.

 

O louvor e a aclamação da "opinião pública" reforçam o sentido da sacralidade na política. Nos agentes públicos não se podem perceber equívocos, humanidade, intolerância, autoritarismo, porque distantes estão do mundo dos pagãos. Colados no púlpito da nave sagrada, discursam seus discursos vazios, mas cheios de apelo popular. Na prática, comungam com o grande capital, com a "ordem social" sem consenso, com as investidas ocultas da construção de uma ideia de bem-estar social pela mídia. Uma doxa (algo sagrado e ao mesmo tempo opinião comum) que reforça o mito das personalidades, projetos, o resultado sacral do homo sacer, o fazedor de benfeitorias sociais.
Neste infeliz cenário, quase nenhuma agremiação política escapa, faltando crítica e dúvida no processo de endeusamento ideológico. Não que devamos ceder ao relativismo que tudo abarca e aceita. Muito menos abrir mão da radicalidade democrática. A direita nunca sairá do lugar comum. Quanto à esquerda, continua correndo atrás do próprio rabo, mordendo os companheiros próximos como se fossem anátemas. Daí a vitória do satanismo na política (tanto pelo adesismo aos planos da direita pela esquerda, quanto pela instituição do discurso da condenação eterna entre os esquerdistas).



Escrito por Renato Polli às 23h49
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Educação integral?

 

 

Como muito bem colocou o professor Eliezer Pedroso da Rocha em seu último artigo sobre avaliação escolar, faz-se prática comum a utilização de conceitos e ideias sem fundamento na área de educação. Por vezes, confusões interpretativas levam a problemas de natureza política na implementação de políticas públicas educacionais. Foi o que aconteceu com o conceito de progressão continuada durante a última campanha para o governo do estado. Agora surge o uso do termo "Educação Integral" para se referir a projetos que, na verdade, se sustentam em outro conceito prático, o de "Educação em Tempo Integral". São, evidentemente, dois termos distintos, que podem interpenetrar-se, mas que têm sido empregados com significado dúbio. Estudiosos sobre o assunto indicam que a simples oferta de "uma maior carga na grade curricular" ou "um maior número de atividades" podem reforçar o "mais do mesmo", fazendo com que a "Educação em Tempo Integral" se constitua como uma extensão do que já se faz, sem inovação, sem criação, reproduzindo um modelo de educação que não necessariamente atende às exigências de uma Educação Integral.

 

O conceito de Educação Integral, cujo significado é muito mais amplo e não se reduz à simples oferta de maior tempo na escola, foi amplamente defendido como referencial para a elaboração de políticas públicas nos anos 90, especialmente a partir da Conferência Mundial de Educação para Todos. Naquela ocasião foram analisados os desafios para que houvesse uma evolução no processo educativo nas décadas seguintes, sobretudo fazendo com que o educar não se reduzisse à dimensão instrumental (a simples oferta de conhecimentos teóricos e procedimentais: aprender a aprender e aprender a fazer). Sem desprezar essa dimensão, a conferência indicava também a necessidade de que outra dimensão, a ético-política (aprender a ser e aprender a conviver), estivesse no mesmo patamar de importância que os saberes teórico-práticos. Apesar de consolidados no discurso sobre educação, ao menos na papelada, os pressupostos da conferência ainda tardam a ser incorporados no fazer escolar, sobretudo porque as metodologias e concepções de educação que embasam as políticas públicas ainda se sustentam na ideia do "mais do mesmo". Apesar do esforço em ofertar mais oportunidades escolares, caberia questionar se elas são adequadas para o contexto histórico em que vivemos.



Escrito por Renato Polli às 23h47
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Esquerda volver?

 

 

Interessante, para não dizer constrangedora a puxada de orelha elegante, dada pelo sociólogo português Boaventura Sousa Santos nos representantes da "esquerda brasileira" no Fórum Social Temático, realizado entre 24 e 29 de janeiro último. A palavra de ordem do pensador foi esta: "a luta democrática tem que ser anticapitalista".

Engraçado, porque a grande maioria dos patrocinadores e militantes presentes no evento são aqueles que apoiam um governo que diz estar à contramão, apoiando a luta antineoliberal. Boaventura criticou abertamente a falta de democracia participativa na condução da elaboração de "políticas democráticas". Apontou para dois fatos aparentemente de menor importância: a ausência de mulheres na mesa do evento e a falta de atenção dada aos interesses indígenas.

Uma economia internacionalizada, que instrumentaliza o fazer político, dificilmente possibilitará a efetivação da democracia participativa. Mais ainda, como ressaltam importantes economistas, a monopolização capitalista patrocinada por países governados por espectros autoritários "de esquerda" ou liberais, influencia o padrão de governo de outros emergentes como o Brasil, que para estancar a política monetária, subsidiam-na com alto custo social: a desindustrialização e a não promoção do desenvolvimento pleno (não só econômico).

Só para aclarar o quadro, basta ver a situação denunciada por líderes indígenas no interior de Goiás. A malária e outras doenças estão simplesmente provocando uma calamidade humana sem precedentes, descontrolada e ignorada pelas autoridades. Outro fato, notório, que demonstra a posição contrária das autoridades ao que estudiosos como Luiz Gonzaga de Souza Lima aponta em seu livro "A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada", em consonância com Boavetura Sousa Santos, é que a esquerda deixou de pensar.

A falta de uma grande interpretação, que contemple preocupações de natureza política e ecológica, leva ao pragmatismo sem causa, sem idealismos. Aqueles que criticam os que produzem intelectualmente, os que supostamente ficam fora do mundo da prática política, estão redondamente enganados.

Na verdade não há como agir de forma eficaz abrindo mão da capacidade de pensar largo. Estar à esquerda, neste caso, é menos aderir ao blá, blá, blá, generalizado do "eu faço, eu me preocupo", e muito mais produzir um projeto político diferente do que a onda neoliberal impõe. Nas palavras de Sousa Santos: "A presidenta disse que o Brasil já teve neoliberalismo, mas que agora os brasileiros não vão deixar o neoliberalismo entrar novamente. Que Deus a ouça."



Escrito por Renato Polli às 00h19
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Filósofo oficial?

 

 

Assim como ocorreu com a "profissão" de historiador, agora aparece mais um deputado querendo "oficilizar" a profissão de filósofo. Os meus argumentos em contrário são os mesmos que utilizei no artigo em que me manifestei quando da regulamentação do ofício de historiador. Primeiro, a filosofia, assim como a história, é muita coisa para ficar na mão de tão poucos.

Segundo, já existem meios legais para garantir o exercício, não da profissão de filósofo ou de historiador, mas da condição acadêmica, porque essas duas áreas são extremamente abertas para contribuições provindas de cabeças pensantes além do diploma. Vale o mesmo hilário saber: daríamos aval a Sócrates, Platão e Aristóteles sem um diploma ou uma "carteirinha da associação nacional"? Ridículo pensar que eles teriam essa necessidade. Pergunto: quem regulamenta a "profissão" de deputado? Ser deputado é atuar profissionalmente?

Questão para se pensar. Sei que alguns são bem profissionais, em muita coisa. E, diga-se de passagem, não só os deputados. A própria entidade que agrega filósofos (ANPOF) já se manifestou, bem diferentemente da ANPUH (Associação Nacional de História), contrária a esse "projeto". Convenhamos: legitimar o ilegitimável é gozação. Sim, porque para informar o desavisado deputado, lembro que a filosofia nada mais faz do que desestabilizar, colocar em dúvida, sob suspeita, tudo o que verifica como digno de reflexão.

Nada de caixinhas. E olha que isso já faz tantas décadas... Provavelmente ele nunca teve uma aula de filosofia, creio eu. Deveria ler um pouco mais de Habermas, o maior filósofo da atualidade, que diz que a filosofia é apenas uma "guardadora de lugar" do conhecimento. Quer dizer, proporciona um estoque de reflexões críticas para que sejam utilizadas, durante o procedimento mais importante defendido há milênios no processo do filosofar: dialogar. Só se aprende quando há interação entre os pares, pelo menos entre os que querem a qualificação do debate.

Aliás, diria até que nem o diploma de bacharel ou de licenciado confere a alguém a condição ou o status de filósofo, já que há diferenças e misturas entre lecionar e filosofar. A música de Caetano adiantou a reflexão e ironizava: "já está provado que só é possível filosofar em alemão..." como quem diz: há certas supostas qualificações e legitimidades para que alguém seja considerado filósofo ou filósofa. Será que o ilustre deputado vai propor também o domínio da língua germânica? Eu mesmo, que estudei alemão durante meu doutoramento, só sei uma frase nessa língua. Acho que terei que estudar mais.



Escrito por Renato Polli às 00h14
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Por amor, sem rancor

 

 

Escrevo em nome da poesia e da arte. Menos pelos dotes pessoais, mais pelos compromissos de cidadão. Não me interessam a filosofia nem a política institucional. Os partidos, da direita à esquerda, com raras exceções, se renderam à tirania do capital, preferindo hidrelétricas e petróleo, especulação imobiliária e acumulação financeira, em vez de decência e boniteza ou a defesa das pessoas e suas condições culturais de vida, como sempre alertou meu mestre, Paulo Freire.

Quero falar como integrante do cosmo. Não me interessa defender a sustentabilidade, um placebo do capitalismo, discurso vazio utilizado para invadir territórios sagrados. Quero falar como irmão dos bichos e das plantas. O que me interessa é o que mais interessa. Tenho certeza, que também à grande maioria. O que não é de ninguém não pode ser de alguém: a vida em sua diversidade. O barulho ensurdece, a agitação afoba, a invasão do espaço amedronta.

Estradas, correria, automóveis, aviões assustam os pobres e indefesos companheiros de jornada que estão perto de nós. Nós fazemos isso. Quero falar pelos situados naquela que foi motivo de canções. Falo junto com outros amigos e entidades. Os sapos, as pererecas e as rãs. As serpentes, lagartos e cobras. Os veados, jaguatiricas, suçuaranas, ouriços, tatus, macacos, saguis, morcegos, capivaras, ratões do banhado, gambás. As aranhas, formigas, os louva-deus, as taturanas.

O João de barro, as jurutis, os beija-flores, os bem-te-vis, os pica-paus, a mãe da lua, o andorinhão, os tucanos, as arapongas, pavós, saíras, surucuás. A Maria preta de bico azulado, do sanhaço, do gavião, da jacutinga e do urubu rei. Essas espécies não acumulam nos bancos. Vão para terra sem deixar descendentes ávidos pelo controle "natural", darwinista, dos bens que o universo nos proporcionou. Apodrecerão como todos nós, mas sua etereidade será melhor absorvida pelo transcendente, porque livres de pecados mortais, de maldades e usurpações.

Falo por aquele que me gerou e viveu boa parte da vida na serra. Sinto muito por não falar em nome dos que supõem poder balancear avanço econômico, urbanismo e preservação ambiental. Engano pensar que podemos adiar esse processo de descalabro com uma "ética mínima", já que não pode haver ética sem política (a ética máxima).

Temos todos que nos situar longe dos interesses menores da filiação partidária, para, livres do purismo, do fundamentalismo, do sectarismo, da falta de historicidade, defender uma causa que é patente: a fauna e a flora de um trecho de mata atlântica que nos circunda. Por nós mesmos, por todas essas espécimes citadas acima, pela nossa boniteza, pela nossa decência. Não por razões legais, econômicas, ideológicas. Não movidos por ódios. Por uma simples razão: estamos ameaçados em nosso potencial de bondade.



Escrito por Renato Polli às 00h11
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Dom Roberto

 

 

A vida nos prega muitas peças. Havia um jovem impetuoso, que no início dos anos 80, ainda seminarista, quis bancar uma conversa de "despedida" do seminário diocesano, com o então titular, Dom Roberto Pinarello de Almeida. A impetuosidade do garoto, que formado nas fileiras de uma mística desencarnada, supunha agora a necessidade do compromisso com a igreja da libertação.

O bispo, furioso, fez um discurso para que assumisse no laicato a profissão de educador. Aconteceu quase como uma profecia. Passados 27 anos, o jovem em questão, que escreve este artigo, encontra no fundo de uma gaveta uma cópia de uma carta de Dom Roberto, endereçada a um outro membro do magistério da igreja, com dizeres surpreendentes. Difícil conter a emoção. Afinal, a suposição que eu tinha de que Dom Roberto assumia o lado tradicional da igreja era mero devaneio e imprudência perceptiva.

Na verdade, a comoção veio por conta da elegância do segundo bispo diocesano ao tratar questões de ordem teológica e pastoral, sem os holofotes do seu sucessor, que desequilibrado ideológica e emocionalmente causava situações de extrema gravidade conflituosa com o clero e com os leigos. Vi na carta de Dom Roberto, aliás, revi, as palavras em que defendia nomes consagrados da ala progressista da igreja, contra a deselegância posta num livro em que questões simplificadas do discurso binário progressismo/conservadorismo, reduziam ao clericalismo algo que é, na verdade, do campo da eclesiologia e da história social.

Senti-me como alguém que cometeu um erro de percepção imperdoável, próprio dos jovens contestadores: não contemplar o todo. Está na gráfica um livro meu que será lançado daqui algumas semanas, em que, a partir da pesquisa científica no campo do programa de História Social da PUC-SP, dentro da linha de Igreja e Movimentos Sociais, apresento minha versão sobre a experiência do movimento de jovens e da Pastoral da Juventude da Diocese de Jundiaí, entre os anos de 1969 e 1986.

Dom Roberto e Padre Paulo André Labrosse foram figuras-chave na transição de uma visão espiritualista de prática pastoral, para a dinâmica da pastoral orgânica. Nunca houve uma interferência de Dom Roberto, para este ou para aquele lado. Ao contrário, foi coerente com a feição que dele guardo hoje: um homem fino, elegante, de alta capacidade intelectual, de beleza física e estética invejáveis.

Enfim, um bispo que, se não estava tão comprometido com a ala progressista, pelo menos era afinado com os ares da democracia que se reinstalava no país. Provas disso são as estratégias que adotou, especialmente compor o antigo com o novo. Fica aqui meu pedido póstumo de desculpas a Dom Roberto.



Escrito por Renato Polli às 23h45
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A razão na cozinha?

 

 

Iniciei a semana de forma muito agradável, ouvindo uma instigante exposição de um grande amigo, associando reflexão ao gosto por cuidar de si mesmo. Não sem muita coincidência, tentando imaginar um motivo para escrever, revirei as páginas de um livro que ganhei de minha cunhada e me deparei com um aforismo do filósofo Nietzsche: "a razão começa na cozinha".

Intrigante, ao menos, que alguém possa pensar que o cuidado com o que se come e como se prepara o que se come represente uma atitude reflexiva, uma capacidade de razão. Normalmente associamos essa capacidade à argumentação lógica, aos formalismos da comunicação, ao desejo constante de contrapor opiniões. Nada mais enganoso. O autor do livro em questão, Allan Percy, comentando o aforismo, nos lembra que a gastronomia de uma região define seus valores, assim como o estômago de uma pessoa, sua espiritualidade.

Brincando com a ideia, Percy ainda indica um documentário, "How to cook your life" (Como cozinhar sua vida), em que um cozinheiro afirma que, na verdade, são os alimentos que nos cozinham. A atitude do cuidado no separar os bons produtos, de prepará-los, de condimentá-los, revela o apreço que alguém que cozinha possui pelos seus parceiros de jornada. O combustível bem preparado significa a capacidade espiritual do cuidado com o que é material, nosso corpo.

Escolher o que comer demonstra a capacidade de transcendência de um indivíduo e, portanto, sua razão, já que escolhe sempre o que é bom, o fazer o bem, o cuidar. Da mesma forma deveríamos procurar escolher bem as palavras, pensar nossos diálogos. Outros dois aforismos, comentados no mesmo livro, completam o quadro de nossa reflexão: o primeiro lembra que "quem não sabe guardar as suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados" e o segundo que "quem declara que o outro é um idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade."

A maior parte das confusões entre pessoas está situada nessa falta de cuidado e na impulsividade que leva ao julgamento, à acusação e à vingança. Como diz a sabedoria árabe, mais inteligente é o que fala por último, depois que todos já foram ouvidos.

Um ditado japonês utilizado por Percy no livro categoriza: "o que tiver que dizer, diga amanhã". Depois dos tormentos do diabólico humano, a reflexão que vem da cozinha nos auxilia a mais ponderar e considerar, revendo as próprias posições, que querer demonstrar que temos razão. Gostoso aprender com as situações da vida e tolerar mais.



Escrito por Renato Polli às 23h44
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Mercadante no MEC

 

 

A já decidida transferência do ministro Aloizio Mercadante, do Ministério da Ciência e Tecnologia para o Ministério da Educação, vem gerando preocupações por parte de vários setores do meio educacional. Os dirigentes da educação básica, especialmente secretários municipais, temem, segundo publicações na imprensa, uma ação política mais incisiva do novo ministro, suprimindo a característica do Ministro Haddad, de diálogo e construção coletiva de propostas.

Uma de suas marcas, ao menos na sua gestão, foi a condução da elaboração do novo Plano Nacional de Educação. Há temores quanto às concepções educacionais de Mercadante, que chefiará um orçamento de cerca de R$ 70 bilhões em 2012. Seu discurso enfático em defesa de uma educação que promova a qualificação profissional sugere que o novo gestor possa incorrer num desvio pedagógico, ou um retorno ao discurso da teoria do capital humano.

Essa teoria foi o norte das políticas educacionais tecnicistas dos anos 70 e 90 e baseava-se fundamentalmente no discurso da formação técnica. As más línguas dizem que o ministro talvez privilegie mais o Ensino Superior Federal, desmontando "tacitamente" o setor privado e deixando de investir na Educação básica. A formação para o trabalho é uma das dimensões da formação escolar, mas não a única. É fato que o Brasil carece de mão de obra qualificada, especialmente agora que fez opção pela exploração de serviços energéticos discutíveis, que necessitam de trabalhadores com melhor preparo para essas áreas.

A prospecção de petróleo, o turismo, a ampliação dos serviços de transportes proporcionados por grandes eventos que virão nos próximos anos, indicariam essa necessidade. No entanto, não se pode permitir que o trabalho educativo se reduza a esta única tarefa. Não se pode privilegiar apenas a tecnologia de ponta em detrimento da formação integral. Na campanha para o governo do estado de São Paulo, Mercadante causou polêmica ao perder a oportunidade de distinguir aprovação automática de progressão continuada.

Ao defender o fim da aprovação automática, fez fortalecer um discurso oposto, que sustenta que essa sempre foi a bandeira das tendências progressistas em educação. Realidade posta, ele será o novo ministro. Resta saber se o cenário que se avizinha se consolidará: um esvaziamento do discurso progressista e o fortalecimento, novamente, de uma concepção tecnicista em educação. Detalhe: o novo ministro é um economista. Qualquer semelhança será mera coincidência?



Escrito por Renato Polli às 23h44
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Que paz é essa?

 

 

Ando meio desconfiado, não sei se nosso discurso sobre a paz vem acompanhado por condições históricas objetivas para que ela vingue. Basta olhar para esse anseio megalomaníaco do anúncio do ano novo, manifestando-se no simples prazer em fazer barulho. Nada contra comemorações, mas estou mais do lado dos milhares e milhares seres que, na natureza, sofrem com essa tradição. Sim, na natureza.

Na zona rural, encontramos muitos dos que chamamos de irracionais, sofrendo por causa daqueles que supostamente a possuem. Véspera de ano novo, por exemplo, na minha região tivemos que aguentar, simplesmente aguentar, um sujeito tocando seu repertório durante o dia inteiro. E mais, no momento certo, vieram os rojões. Trata-se de uma área cheia de animais silvestres que, passivos, precisam sofrer as dores de parto de alguém que não tem paz e não deixa os outros viverem em paz.

Dias antes do final do ano, cena no mínimo horripilante, uma pessoa brigando no trânsito. Alguns dias depois, eu seria vítima do xingamento de um outro. A tranquilidade cedeu lugar à loucura, escapamos por sorte, quando a temos. Animais abandonados aos quatro cantos da cidade, em plena chuva, inclusive próximos ao Centro de Controle e "Bem-Estar" animal. Nada mal. Um paradoxo, diria. Primeiro dia do ano, dia mundial da paz.

Olhamos para os desdobramentos da economia nacional e nos deparamos com aberrações, como o fortalecimento do capital financeiro, as investidas em usinas hidrelétricas cujos impactos serão nefastos, um discurso econômico em descompasso com o que apontam sérios economistas (não há desenvolvimento algum) e, ainda por vir, a possível fusão do ministério da ciência e tecnologia com o da educação (dizem as más línguas).

Há um projeto em curso, nem sabemos bem ao certo o que é e como se consolidará, mas há. Notícias frescas, publicadas nos últimos dias, dão conta da morte de milhares de soldados no Afeganistão, todos estavam lá para manter a paz entre os povos, claro. O que será que demonstra a possibilidade da paz, ainda? Pelo menos a paz interior. Sejamos cômicos ao menos. Mas rir das desgraças alheias, que agora começam com a temporada de chuvas, não tem graça nenhuma.

Muito anseio e pouca paz, na verdade. A correria, as demissões de final de ano, os desencorajamentos cotidianos, as críticas constantes, as insatisfações, as cobranças, fazem com que a ansiedade, o desespero, a desesperança nos espreite. A quem recorrer? Só vejo uma saída. Esperançar mesmo contra toda desesperança. Arregaçar as mangas e fazer a nossa parte. Cuidar dos animais, votar de maneira consciente, trabalhar com honestidade e dedicação, contaminar a vida com atitudes de paz.



Escrito por Renato Polli às 23h42
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Tempo rei

 

 

Gilberto Gil nos brindou com uma das mais belas letras da música popular brasileira. Em um trecho ele diz: "não me iludo, tudo permanecerá do jeito que tem sido...". Aparentemente uma visão determinista, imobilista, como se nada mudasse, tudo sempre permanecesse assim do jeito que está. Mas em outro trecho ressalta: "transformai as velhas formas do viver". Eis a esperança humana. Sabedores que somos do inevitável de certas permanências, esperançosos ficamos em relação às mudanças possíveis.

O tempo, eis a questão. O que é o tempo? Em geral o identificamos com a cronologia, com a medição mecânica dos segundos, minutos, horas, dias. Raramente pensamos no tempo como experiência vivida, como a possibilidade do inusitado entremeado pelo corriqueiro. Sim, uma constância quase temerária, já que a ela queremos controlar. Assusta-nos essa regularidade, mas é justamente nela em que fundamos as possibilidades do novo.

Continuamos, por razões as mais incompreensíveis, saudando o início de novos tempos, um novo ano, uma nova situação de vida. E perdemos o sentido de regularidade criativa, creditando no depois, a esperança que poderíamos concretizar na mesmice do cotidiano. Há lampejos de sentidos ocultos nos mais supostamente inexpressíveis eventos do dia a dia. Nossa visão megalomaníaca não nos permite perceber na simplicidade dos sentimentos, atitudes, acontecimentos, bases fundamentais para um fundamento existencial.

Um gesto de generosidade, uma atitude de compreensão, uma palavra de conciliação, uma espera paciente, uma doação sem esperar reciprocidade, uma caridade emergencial (mas fundamental). Ao preferir repetir inadvertidamente os fracassos e insucessos, deixamos de perceber o que de bom podemos fazer. Atiramo-nos pedras quando poderíamos juntá-las para construir um castelo de alternativas viáveis para a convivência, a melhoria de condições de vida, a resolução democrática (de fato e sem interesses escusos por trás) de problemas da urbanidade.

Gosto de lembrar uma frase que meu pai diz com muita sabedoria, o tempo todo: "nada como o tempo". Sim, nada como o tempo, ele se encarrega de tudo. Mas não um tempo que virá, lá longe, e sim um tempo que acontece no agora. Ele mesmo, esse tempo do vivido contínuo, do agora. Se estivéssemos mais atentos a ele, nem precisaríamos soltar rojões no dia 31 de dezembro, porque a vida em sua continuidade, por si só, já é uma grande comemoração.



Escrito por Renato Polli às 23h41
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Vivendo no mundo material

 

 

Às vésperas do natal, sempre surge a apreensão quanto à escolha do tema do artigo que escreverei. Como a experiência pessoal de vida sempre me mobilizou para refletir sobre questões ligadas à religião, foco de uma das minhas experiências acadêmicas de pesquisa, nesta época do ano, me direciono por esse caminho. Hoje abro uma exceção. Não propriamente porque fugirei à regra temática, mas pela escolha do caminho a percorrer.

Quero comentar sobre a produção do filme-documentário "Living in the material world", do diretor Martin Scorcese, sobre a vida de George Harrison, o "quiet beatle", como era chamado. O próprio nome do documentário, referência à crença espiritual de Harrison, em muito associada à sua amizade com Ravi Shankar, músico e espiritualista hindu, indica que não saímos do tema de sempre. A espiritualidade é um elemento da cultura. Isso é um fato inegável.

Por mais críticas que o meio acadêmico e científico possam fazer aos meandros da alienação proporcionada por influências religiosas (uma inferência reflexiva quase sempre legítima, especialmente em Marx), não é possível deixar de admitir a presença do inefável desejo humano pela transcendência. George Harrison, um músico de sucesso vindo de família pobre, que conquista todas as condições materiais objetivas para viver uma vida voltada apenas aos elementos físicos da experiência, propunha uma vida de desapego.

Alguns dirão que é bem fácil para uma pessoa em boas condições econômicas propor tal empreitada. Talvez. Há amigos de Cristo, como Lázaro, que assim viviam. A maioria deles, no entanto, estava na pobreza. Para muitos a pobreza é natural e não há nada que possamos fazer contra ela. Pior é a pobreza de espírito, dizem. Mas Cristo advertia: "mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus." No entanto, o próprio Harrison se desalienava dessa compreensão, ao assumir compromissos caritativos, como o famoso show em favor de Bangladesh.

A caridade é o primeiro passo em direção à libertação. O romantismo da vida espiritual elevada não é de se desprezar, mas ele exige ações concretas em direção a uma bondade universal que se traduz pela superação da injustiça material. Afinal, vivemos num mundo material, que, se nos aprisiona, também pode libertar ao priorizarmos a consciência sobre o que fazemos da própria vida. O natal pode representar isso, se quisermos. Como um fã incondicional de Harrison, sugiro a todos que assistam esse emocionante relato de um privilegiado Beatle, sobre o que é viver as contradições humanas.



Escrito por Renato Polli às 23h40
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O outro lado

 

 

É bastante recorrente na literatura educacional a crítica à culpabilização do aluno. O educador americano Peter MacLaren, um dos principais autores da Pedagogia Crítica, amigo de Paulo Freire, diz em um de seus trabalhos que há muita vileza de espírito povoando o ambiente escolar. Provocadora de muitos sofrimentos no lado mais fraco da relação professor-aluno, a prática sinistra de jogar a culpa das dificuldades do educando nas suas próprias costas é uma nefasta maneira de empurrar para debaixo do tapete algo que muitos não assumem: sua perversidade.

É verdade que os educadores devem sugerir responsabilidades necessárias à prática de estudo. É verdade também que nem sempre há correspondência entre o que se espera do aluno e o que ele oferece. No entanto, temos que ser honestos em admitir que na maioria das situações, a escola enquanto instituição não faz muita coisa em favor da compreensão dos reais motivos que levam aos descompassos dos alunos. Deste ponto de vista, creio que muitos educadores se isentam da responsabilidade de perceber o aluno como pessoa.
Os dizeres, os termos utilizados, especialmente nesta época de fechamento de ano letivo, são um tanto repetitivos: falta de pré-requisitos, falta de empenho, falta de responsabilidade, falta, falta, falta... Falta muita coisa, de fato, inclusive a sensibilidade que se espera daqueles que estão há muito tempo na vida. Especialmente para não confundir crianças e adolescentes como "adultos em miniatura". As vozes menos complacentes dirão que vivemos tempos de impunidade e "que vença o chicote pedagógico".

Ao projetarem nos alunos suas idiossincrasias pessoais, muitos educadores sequer se dão ao trabalho de rever suas posições, se elas são efetivamente humanistas. Não por desleixo metodológico, mas por convicção progressista, aqueles que se alimentam do sonho emancipatório não podem referendar processos de exclusão escolar com o discurso camuflado de suposta coerência, embebido na salada neoliberal da eficácia e da eficiência.

Numa situação paradoxal teríamos os pais de um recém-nascido negando-lhe o direito de viver, já que a partir de seu olhar, faltaria ao bebê pré-requisitos para seguir seu curso natural. Como a própria expressão já diz, "o seu curso natural". Analogamente, a muitos alunos é negado o direito de prosseguir. Sugeriria leituras sobre evasão e reprovação no Brasil: a perversidade é sistêmica e dela temos que abdicar, sob pena de nos tornarmos responsáveis pelas mazelas que dizemos combater.



Escrito por Renato Polli às 23h39
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