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Blog de renato polli
 


A súplica dos elementos da natureza

 

Numa aula de filosofia, na qual eu discutia com a classe o tema da ética e da necessidade do cuidado com as nossas relações interpessoais, com o meio ambiente, um aluno me interpelou, perguntando se eu tinha visto nos jornais as notícias sobre os problemas causados pelo efeito estufa. Eu disse que já tinha visto alguma coisa, mas ele parecia ter muito mais informações a respeito, afirmando que as pessoas não têm dado importância para o que diz a natureza. Argumentando em favor das causas ecológicas, trouxe dados sobre poluição, contaminação das águas, desmatamento. Impressionado, sugeri a ele que escrevesse um texto a respeito do assunto. Ele respondeu:

- Mas, professor, como eu poderia produzir um texto relacionando ecologia e filosofia?

Socraticamente, disse-lhe que ele próprio deveria descobrir. Pedi que escrevesse uma crônica, associando elementos críticos, ficção, humor e cotidiano num texto que contemplasse algo que fosse próprio da filosofia. Se tivesse condições, que providenciasse o recurso literário da mitologia.

Passados alguns dias, ele veio com esta narrativa:

“Os deuses têm muito mais o que fazer. Zeus, em vez de ficar cuidando da gerência do Olimpo, tem que consertar os estragos provocados pelos homens. São tantos os problemas, que ele nem sabe por onde começar.

Certo dia, os ares, os rios, as montanhas e o fogo se dirigiram ao lugar sagrado. Lá encontraram Zeus, encaminhando-lhe um pedido de clemência pela terra. Oiá, senhora dos ventos, raios e tempestades naturais, incomodada com os destemperos climáticos, suplicou:

 - Zeus, por favor, controle a força da atmosfera, ajustando a proteção inicial da camada de ozônio para que os efeitos do calor não aumentem os impactos do clima. Dizem que só os Estados Unidos sozinhos causam o maior problema, pois não param de consumir petróleo, disse ela.

 O deus supremo, sensibilizado com o pedido, resolveu atendê-lo. Urano, o céu gerador da vida, tornou-se límpido num instante. Gaia, a mãe-terra, ficou radiante e bonita.

Os rios, que abarcam as águas, filhos do titã Oceano e Tétis, aproveitaram a presença de Poseidon junto a Zeus para também reivindicar:

- Poseidon, deus dos mares, os homens contaminam as águas com plásticos, dejetos, produtos químicos e até sofá velho. Será que o Senhor não pode ajudar a amenizar os problemas causados por essa ignorância, já que os animais marinhos e terrestres são dependentes do líquido sagrado para sobreviver?

Rindo, mas com olhar terno, Poseidon abençoou as águas doces e salgadas, purificando-as definitivamente. Disse que, num dia desses, um pedaço de prancha de surf enroscou-se nos seus cabelos. E toda vida animal regozijou em retumbante festa.

As ninfas, entidades protetoras das matas, presentes no encontro, dirigiram-se a Zeus a fim de pedir clemência para a natureza vegetal, ao menos para que pudesse interferir no corte e comercialização indiscrimados da madeira. Disseram que todas as montanhas cobertas pelas selvas deveriam ser protegidas pelo rei olímpico.

E o verde refinado das folhas aguçou com intensidade, por ação divina, em processos metabólicos de fotossíntese, criando condições para que a limpidez do oxigênio adentrasse aos pulmões de todos os seres vivos.

 O fogo, comprometendo-se a apenas aquecer, iluminar e coadjuvar nos trabalhos domésticos assinou um termo no tribunal celeste, dizendo não permitir jamais que os homens dele se apropriem para fins dominadores. Até na caverna do mito a luz se fez sentir, enchendo de sabedoria as mentes dos outrora ofuscados pela escuridão. E Zeus considerou que tudo estava ficando bom. Lembrou-se que Prometeu, neto de Gaia e Urano, ajudou a dar a vida aos homens, utilizando-se da água e do barro, além de ter reunido, na criatura humana, todas as qualidades e defeitos encontrados entre os animais. Atena foi quem insuflou no homem o espírito da sabedoria. No entanto, os homens derrubaram o vaso de Pandora, provocando todo o mal que acometeu o planeta.

Se isso aconteceu, foi por ação do homem, disse Zeus. Assim, resolveu mudar a situação. E viu que tudo era bom. Ficou feliz pela recuperação do planeta e reavivou em Prometeu o desejo de recuperar também a humanidade, sugerindo-lhe aguçar a audição dos homens, com uma nova ajuda de Atena. Assim foi feito.

Por fim, todos desceram o monte sagrado e puderam perceber, em seu retorno, que os ouvidos humanos se aprimoravam e, ouvindo com atenção, entenderam que, quando a natureza fala, a sua sabedoria aumenta. A natureza diz e agora todos ouvem.

Lido o texto, percebi que era muito bom. Dei ao aluno a nota máxima.  Intrigado com o conhecimento do garoto, perguntei a ele por qual razão se interessava tanto por questões ecológicas. Ele me disse que ninguém ouve a voz da natureza. Emendei outra pergunta. E o que você ouve? Ele disse:

- Professor, quando a natureza me fala eu ouço súplica.

E vi que ele não era só um bom aluno, mas uma boa pessoa.

 

 



Escrito por Renato Polli às 21h48
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Os 80 anos de Habermas

 

            No último dia 18, Jürgen Habermas, o maior filósofo alemão da atualidade, completou 80 anos. Meu encontro com Habermas ocorreu há 9 anos, quando intui meu projeto de doutorado que associou sua ética à ética de Paulo Freire. Grande surpresa foi constatar que meses antes de seu falecimento, Freire havia agendado uma conversa com o filósofo, que infelizmente não veio a acontecer.

            Não é preciso muito esforço para os leigos perceberem que estamos diante do maior filósofo vivo. Habermas foi o grande responsável pela elaboração da mais completa síntese sobre o mundo contemporâneo e seus dilemas, tarefa que se tornou muito próxima da produção de Freire.

            Herdeiro da tradição da escola de Frankfurt, que abrigou ninguém menos que Adorno, Horkheimer e Marcuse, Habermas deu um grande passo no aprimoramento das obras de seus mestres, sobretudo refazendo o espírito positivo sobre as possibilidades humanas que a dialética negativa de Adorno não conseguira ensejar.

            Pai da razão comunicativa, Habermas apostou na utopia de uma comunicação limpa e livre, a despeito de todos os mecanismos de controle da racionalidade instrumental. Neste aspecto, sua teoria se assemelha ainda mais, guardadas as devidas proporções de ordem temporal e territorial, aos postulados freireanos acerca do diálogo.

            É um devedor confesso das contribuições de seu amigo Karl-Otto Apel para a elaboração da Ética do Discurso, uma ética universalista que supõe a capacidade de consensos provisórios e utópicos, mas em caráter pragmático, em torno de normas e valores para o agir.

            A Teoria do Agir Comunicativo, enquanto seu maior legado para a filosofia sustenta hoje uma série de estudos que se desenvolvem em várias áreas do conhecimento, como a filosofia, a educação, o direito, a sociologia e a da comunicação.

            Sua versatilidade o levou a dialogar com diferentes áreas do conhecimento, passando pela filosofia, pela sociologia, pela psicanálise, pela lingüística, além de articular saberes com várias tendências de pensamento contemporâneo, como o pragmatismo, a hermenêutica, o marxismo humanista não doutrinário, a fenomenologia e o hegelianismo.

            Chega aos 80 anos com a virilidade intelectual de quem já caminhou décadas de revisão teórica, para ancorar-se em fundamentos racionais sólidos e inquestionáveis, como o da elaboração coletiva do conhecimento, a capacidade de arrazoamento ético e a crença no futuro da humanidade, como algo a ser construído a partir do potencial comunicativo.

           

José Renato Polli. Doutor em Educação (FEUSP). Professor universitário e Diretor do Colégio Paulo Freire. Autor de “Paulo Freire: o educador da esperança” (In House).



Escrito por Renato Polli às 22h32
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Liderar democraticamente

 

            Numa cultura em que impera uma visão paternalista, liderar democraticamente não é tarefa das mais fáceis. Acostumados a esperar decisões unilaterais e “eficazes” das lideranças, os liderados, muitas vezes, ou se acomodam em seus particularismos, esperando atendimento, ou se desresponsabilizam pela sua tarefa de ajudar a consolidar ambientes democráticos.

            As críticas, tão necessárias ao ambiente coletivo, ainda não são feitas tendo em vista o interesse do todo e é mais fácil pegar a liderança para Cristo. As inquietações humanas quanto ao trato com a autonomia deslegitimam o poder democrático, na medida em que o outro é visto como único responsável pelo sucesso ou insucesso dos projetos que são desenvolvidos nas organizações. E também pelo atendimento a interesses pessoais.

            Numa sociedade marcada por relações verticais, sofrida com os anos de cultura autoritária, construir autonomia participativa e renegar o paternalismo ainda se constitui como um grande desafio. Ser autônomo, num mundo marcado pelo clima de centralismo decisionista, principalmente a partir da fragilidade das autoridades, tornou-se ambição de segundo plano.

            Os pais fazem tudo pelos seus filhos, inclusive acobertam seus poderes de decisão, gerando desde a família, uma relação inversa de autoridade, em que pesa mais o choro dos que comandam (os filhos) que a legitimidade do poder dos adultos.

 Nas organizações, quando da construção de alternativas de gestão pautadas no diálogo e na transparência, emergem insatisfações motivadas pela influência do paternalismo. Se não há soluções imediatas para problemas de ordem pessoal ou coletivo, a grande vitrine da liderança sempre estará na berlinda. Em muitos casos, a fidelidade ao projeto e às pessoas fica em segundo plano, além da compreensão que decisões coletivas demoram e não caem do céu, como desejam os afoitos. As crianças grandes ainda teimam em considerar que devem decidir pelos pais, vistos como vítimas da indecisão e da ineficiência.

            Outro problema que afeta sobremaneira o ambiente de gestão é o da mania de comparações. As pessoas julgam e categorizam envolvimentos com o projeto a partir de seus referenciais sobre o que é melhor para o grupo. Desta forma, se isolam do coletivo e não conseguem se colocar democraticamente, sujeitas a criticar e a receber críticas. A possibilidade da fala enseja também da crítica. E tem também a autocrítica, categoria ainda mais esquecida.

 

José Renato Polli. Doutor em Educação (USP), professor universitário e diretor do Colégio Paulo Freire. Autor de “Paulo Freire: o educador da esperança” (In House).



Escrito por Renato Polli às 22h19
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